sábado, 31 de março de 2012

Escrever na Areia


"Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós" Mateus 6.14
Certa feita, dois amigos, Mussa e Nagib, viajavam pelas estradas que recortam as tristes e sombrias montanhas da Pérsia. Eram nobres e ricos e andavam acompanhados por seus servos e ajudantes. Certa manhã, chegaram as margens de um grande rio barrento e impetuoso.
Para que continuassem o caminho, era preciso transpor a corrente ameaçadora. Porém, ao saltar de uma pedra, Mussa foi infeliz e caiu no torvelinho espumante das águas em revolta. Teria ali perecido, arrastado para o abismo, se não fosse Nagib. Este, sem a menor hesitação, atirou-se à correnteza, livrando da morte seu companheiro de jornada.
Mussa, já sob uma coberta quente e confortável, ordenou que o mais hábil de seus servos gravasse na face lisa de uma pedra, que ali se erguia, esta legenda admirável. O servo gravou: "VIAJANTE, NESTE LUGAR COM RISCO DA PRÓPRIA VIDA, NAGIB SALVOU HEROICAMENTE SEU AMIGO MUSSA".
Feito isso, prosseguiram com suas caravanas pelos caminhos do Oriente.
Cinco meses depois, durante a viajem de regresso, encontravam-se os dois amigos naquele mesmo lugar perigoso e trágico. E, como estavam fatigados resolveram repousar à sombra acolhedora da pedra que ostentava a honrosa inscrição feita por Mussa.
Já acomodados na areia clara, começaram a conversar, e, eis que por motivo fútil, surgiu de repente grave desavença entre os dois companheiros.
Discordaram. Discutiram. E então Nagib exaltado em um ímpeto de grande cólera esbofeteou brutalmente o amigo.
Mussa, sem dizer palavra alguma, não revidou a ofensa. Ergueu-se e tomando tranquilo o seu bastão andou até a margem do grande rio. Ali escreveu na areia, ao pé do negro rochedo: "VIAJANTE, NESTE LUGAR POR MOTIVO FÚTIL, NAGIB INJURIOU GRAVEMENTE SEU AMIGO MUSSA".
Surpreendido com o estranho ato, um dos ajudantes de Mussa observou respeitosamente:
— Senhor, da primeira vez, para exaltar a coragem de Nagib, mandaste gravar na pedra o feito heroico. E agora que ele acaba de ofendê-lo tão gravemente, o senhor limita-se a escrever na areia incerta o ato de covardia.
Mussa fitou o humilde servo e esclareceu:
— A razão é simples. O beneficio que recebi de Nagib permanecerá para sempre em meu coração. Mas a injúria... essa negra injúria... escrevo na areia, com o voto de que ela desapareça rapidamente não só do local onde a registrei mas também das minhas lembranças.
— acrescentou mais: — A primeira legenda ficará para sempre. Todos os que transitarem por este sítio, dela terão notícia. Esta outra porém, riscada na areia, antes do cair da tarde terá desaparecido!
Meu amigo, ai está a grande verdade. Aprenda a gravar na pedra os favores que você recebe, os benefícios que lhe fazem, as palavras de carinho, simpatia e outras tantas que ouvir. Porém aprenda a escrever na areia as injurias as ingratidões, as ironias que lhe ferirem a vida. Só dessa maneira serás feliz.