sexta-feira, 26 de março de 2010

Oração - O exercício mais nobre

Durante esta aflição, fui levado a examinar minha vida em relação à eternidade com mais atenção do que quando gozava saúde. Nesse exame, relativo ao cumprimento dos meus deveres para com os meus semelhantes como um homem, um ministro cristão e um oficial da Igreja, eu estava aprovado pela minha própria consciência; mas em relação ao meu Redentor e Salvador, o resultado era diferente. Minha retribuição de gratidão e obediência dedicada não se compararam com as minhas obrigações a Deus por ter-me remido, preservado e sustentado em meio às vicissitudes da vida desde a infância até a velhice. A frieza do meu amor a Ele, que me amou primeiro e fez tanto por mim esmagou-me e confundiu-me; e para completar meu carâter indigno, não só negligenciara o cultivo da graça concedida em toda extensão do meu dever e privilégio, mas também, como falta desse cultivo, embora abundando em cuidado e trabalho inquietantes, declinara-me do primeiro zelo e amor. Eu estava confundido; humi-lhei-me, implorei misericórdia, e renovei meu pacto de empenhar-me e devotar-me sem reserva ao Senhor.
— Bispo MeKendree
A pregação que mata pode ser, e muitas vezes é, ortodoxa — dogmática e inviolavelmente ortodoxa. Amamos a ortodoxia. A ortodoxia é boa e é a melhor. É o puro e claro ensinamento da palavra de Deus, os troféus ganhos pela verdade sua luta contra o erro, obstáculos que a fé levantou contra o transbordamento desolador da crença errada ou da incredulidade honesta ou negligente; mas a ortodoxia, clara e dura como cristal vigilante e militante, pode ser apenas a letra de bela forma, de renome e bem estudada, a letra que mata. Nada é tão morto como uma ortodoxia morta, demais para especular, demasiadamente morta para pensar, para estudar ou para orar.
A pregação que mata pode ter discernimento e encerrar princípios, pode ser erudita e ter bom gosto, pode ter todas as minúcias da derivação e gramática da letra, pode ser capaz de compor a letra segundo seu perfeito padrão e iluminá-la como Platão e Cícero podem ser iluminados, pode estudá-la como um advogado estuda seus manuais para formar seus autos ou para defender seu caso, e pode ser ainda como uma geada, uma geada mortífera. A pregação-letra pode ser eloquente, esmaltada de poesia e retórica, borrifada de oração, temperada de sentimento, iluminada pelo génio e tudo isso ainda pode ser só puros acessórios custosos e volumosos, flores raras e belas que embelezam o defunto. A pregação que mata pode ainda não ter erudição, não ter qualquer refrigério de pensamento ou sentimento, revestida de elementos sem gosto ou especiarias insípidas, de estilo irregular e desalinhado, não tendo o sabor do recolhimento espiritual nem do estudo, não estar agraciada por pensamentos nem por expres¬são nem por oração. Quão grande e total a deso¬lação sob tal pregação! Quão profunda a morte espiritual!
Essa pregação-letra lida com a superfície e a sombra das coisas e não com as próprias coisas.
Não penetra a parte íntima. Não tem o discerni¬mento profundo, o alcance forte, a vida latente da Palavra Divina. É verdadeira no seu exterior, mas o exterior é a casca que deve ser quebrada e pe¬netrada para ser alcançada a amêndoa. A letra pode estar vestida de tal modo a atrair e ser ele¬gante, mas a atração não é em direção a Deus, nem é segundo os padrões celestiais. A derrota está no pregador. Deus não o fez. Ele nunca es¬tivera nas mãos de Deus como a argila nas mãos do oleiro. Ocupara-se com o sermão, seu pensa¬mento e acabamento, sua redação e suas forças impressionantes, mas as profundas coisas de Deus nunca foram pensadas, estudadas, sondadas e ex¬perimentadas por ele. Nunca estivera de pé diante do "trono alto e sublime", nunca ouvira os cân¬ticos de serafim, nunca tivera visão nem sentira o impacto da imponente santidade, nunca clamara num completo abandono e desespero sob a consciência da fraqueza e da culpa. Nunca tivera a sua vida renovada, seu coração tocado, purificado, inflamado pela brasa viva do altar de Deus. Seu ministério tem poder de atrair o povo para si, para a igreja, para a forma e cerimónia; mas não há real atração para Deus, nem indução à comunhão doce, santa e divina. A igreja tem sido enfeitada, mas não edificada; agradada, mas não santificada. A vida é suprimida; há calafrio mes¬mo no verão; o solo está queimado. A cidade do nosso Deus transforma-se numa cidade de mor¬tos; a igreja, num cemitério e não num exército em batalha. Louvor e oração são sufocados; a ado-ração, morta. O pregador e a pregação auxiliaram o pecado e não a santidade; povoaram o inferno e não o céu.
A pregação que mata é a pregação sem oração. Sem oração, o pregador gera a morte e não a vida. O pregador que é débil na oração, é débil em forças vivificantes. O pregador que se afastou da oração como elemento conspícuo e predominante do seu próprio caráter despojou sua pregação do característico poder vivificador. Há e haverá oração profissional, mas a oração profissional ajuda a pregação na sua obra de morte. A oração profissional enregela e mata tanto a pre¬cação como a oração. Muito da devoção frouxa e das atitudes indolentes e irreverentes na oração congregacional é atribuído à oração profissional do púlpito. Longas, discursivas, secas e fúteis, são as orações em muitos púlpitos. Sem unção ou co¬ração caem como uma geada mortífera sobre to¬das as graças da adoração. São orações que tra¬zem a morte. Todo o vestígio de devoção pereceu sob seu sopro. Quanto mais mortas forem elas, mais crescem em extensão. É necessário uma ins¬tância por oração curta, oração viva, oração realmente de coração, oração pelo Espírito Santo — oração direta, específica, ardente, simples e un¬gida, no púlpito. Uma escola para ensinar os pre¬gadores a orarem oração que Deus considera como; oração, seria mais benéfica para uma piedade ver-dadeira, adoração legítima e pregação real, do que todas as escolas teológicas.
Pára! Faze uma pausa! Considera! Onde es¬tamos nós? Que estamos fazendo? Pregando para matar? Orando para matar? Orando a Deus! o grande Deus, o Criador de todos os mundos, o Juiz de todos os homens! Que reverência! Que simplicidade! Que sinceridade! Que verdade é exi¬gida! Quão verdadeiros devemos ser! Quão since¬ros! Orar a Deus é o exercício mais nobre, o es¬forço mais sublime do homem, o fato mais real.
Que suprimamos para sempre a maldita pregação que mata e a oração que mata, e vamos pôr em prática a coisa real, a coisa mais poderosa, a ora¬ção que é realmente oração, e a pregação vivificadora que traz a força poderosa que sustenta o céu e a terra e que extrai os tesouros abertos e inesgotáveis de Deus para socorrer a necessidade e a indigência extrema do homem.
Poder Através da Oração
por E. M. Bounds
Capítulo  3 -  O EXERCÍCIO MAIS NOBRE DO HOMEM