terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sermão do Monte

ESTUDOS PRÁTICOS SOBRE O SERMÃO DO MONTE 
Mateus 5 a 7  -  Autoria Valter Graciano Martins 

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 Estudo 1 
QUE SERMÃO É ESTE? 
Mateus 5.1, 2 
Plano semanal
1. O caminho do jovem (Sl 119.9) 
2. Guardando a palavra (Sl 119.11) 
3. Abençoada aflição (Sl 119.67, 71) 
4. O valor da lei divina (Sl 119.72) 
5. Lei infinita (Sl 119.96) 
6. Amor à lei (Sl 119.97) 
7. Doçura da palavra (Sl 119.103) 
Objetivo do estudo
Levar o estudante da Bíblia a descobrir que o Sermão do Monte, antes de ser um código de leis a ser obedecido, consiste de princípios dinâmicos a serem aplicados à vida, sob a bênção de Deus. 
Para memorização
“Lâmpada para meus pés é tua palavra, e luz para meus caminhos.” 
Para leitura e ponderação: Salmo 119 
Para o início da aula: Mateus 5.1, 2 
Introdução 
O assim chamado Sermão do Monte constitui uma das porções mais belas, mais vitais e mais bem conhecidas dos Evangelhos; é também uma das menos compreendidas e praticadas pelos cristãos, e das mais polêmicas entre os intérpretes da Bíblia. Se esta parte do Evangelho não for bem compreendida, tampouco será prática e proveitosa ao coração crente. 
1. Concepções humanas. 
Comecemos apresentando alguns conceitos emitidos por mestres que tentam resolver o dilema do propósito do Sermão do Monte. 
1.1. Perfeccionismo. Esta concepção afirma que, neste Sermão, Jesus indica a seus discípulos o que ele requer deles; ele lhes aponta a vontade de Deus e como sua vida deve ser por ela comandada. Aqui temos a ética obrigatória de Jesus dada a seus seguidores. Este Sermão se ajusta perfeitamente ao contexto veterotestamentário e judaico. Pois é precisamente isso o que o Antigo Testamento reitera sem cessar: obedeça e você viverá! Assim, o tema central da teologia judaica da época de Jesus era o caráter inflexível da lei divina. O caráter humano é aperfeiçoado pela obediência às normas do Sermão do Monte. 
1.2. Ideal inatingível. Esta concepção ensina que o que Jesus apresenta no Sermão do Monte é humanamente impossível de se atingir e de se praticar. Então, qual foi a intenção real de Jesus? Ele deu a entender a seus ouvintes que, por suas próprias forças e iniciativas, não poderiam satisfazer as exigências divinas. Ele tencionava levá-los, pela experiência de sua incapacidade, a desesperar-se de si mesmos. Suas exigências tendiam a quebrar nossa auto-suficiência; a nada mais visavam além isso. 
1.3. Ética emergencial. Esta declara que suas exigências tinham como base a terrível gravidade do momento. Jesus está olhando para a destruição de Jerusalém, que se daria no ano 70 d.C., que seria efetuada pelo exército romano. O Sermão do Monte visa a preparar o povo para aquele evento, e nada mais além disso. 
1.4. Réplica da lei mosaica. Esta defende a tese de que o Sermão do Monte nada mais é senão uma nova versão dos mandamentos do Sinai (dois montes: um na Arábia Saudita e outro, na Palestina). Jesus é um segundo Moisés, a exigir de seus seguidores plena obediência a uma lei nova e mais rígida. 
1.5. Um reino futuro. Esta concepção declara que o Sermão do Monte não foi dado para esta dispensação; ele visa ao reino milenial no futuro. O homem milenial terá condição de viver pelo prisma do Sermão do Monte. Este é o conceito do dispensacionalismo. Diante do fato de os judeus não terem crido na doutrina ensinada por Jesus, de ele próprio ter sido rejeitado por eles, então resolveu morrer na cruz e adiar o estabelecimento do reino para o fim da presente dispensação, para um período em que Cristo virá reinar pessoalmente, assentado no trono terreno e vazio de Davi, quando todos seus súditos obedecerão às ordenanças promulgadas no Sermão do Monte. 
2. Seu real significado
Enfim, o que realmente significa o Sermão do Monte? A que visa seu conteúdo? Antes de tudo, vejamos bem 
2.1. O que ele não significa. Este Sermão não significa um modo pessoal e único de vida diante de Deus. Homens e mulheres, no mundo inteiro, disseram e dizem crer somente no conteúdo do Sermão do Monte, e que ele é suficiente para uma vida religiosa agradável a Deus, sem nem mesmo precisar-se de se converter e crer em Cristo para a vida eterna. Diz a história que o grande místico hindu, Gandhi, cria assim: basta-me o Sermão do Monte, e nada mais. Aqui eu tenho minha religião. Então, vejamos o que ele significa: 
2.2. É o evangelho do reino. Evangelho significa boas notícias sobre a salvação eterna, e reino indica o reinado de Deus no coração e vida do povo da aliança da graça, efetuando nele sua plena salvação, sua constituição como igreja e, finalmente, estabelecendo um universo redimido. O Sermão do Monte revela que esse povo existe e que vive no centro da vontade soberana do Deus que domina seus corações com um amor sempre renovador e vivificante. 
2.3. É a expressão do amor de Deus. Em vez de o Sermão do Monte expressar a vontade arbitrária de um déspota, à qual os súditos têm de obedecer, querendo ou não, ele expressa, antes de tudo, o amor providente do Legislador solícito. Seu conteúdo revela vontade amorosa, porquanto Deus deseja que os súditos de seu reino sejam perfeitos. Através deste Sermão, percebemos que Jesus nos diz que a única via de acesso para a felicidade humana é esta: Bem-aventurados ... 
2.4. São princípios para serem vividos, antes que obedecidos. É bem provável que o maior problema neste Sermão seja o fato de o vermos como uma coleção de regras ou normas para serem estritamente obedecidas, em vez de vermos aí uma palavra viva, dinâmica, para ser vivida de forma espontânea pelos filhos de Deus e súditos do reino celestial. Estes princípios devem ser, antes de tudo, vividos pelo cristão. Devemos tomá-los, assimilá-los e viver em função deles, de maneira alegre e espontânea. O estudo, a meditação sobre o Sermão do Monte, nos leva a nos apropriarmos das bênçãos da nova aliança prometidas nele. Ora, essas bênçãos são vida dinâmica, antes que disciplina estática e imposta
3. Por que Jesus o enunciou? 
Esta é uma pergunta vital. Jesus é simplesmente o segundo Moisés, munindo sua igreja de uma nova legislação? Certamente, não! Leia Hebreus 3.6. Tentemos penetrar a intenção de Jesus, e digamos o que ele pretendia nos revelar aqui. 
3.1. A amplitude da incapacidade humana. Antes de tudo, o Sermão do Monte nos choca; ante nossa incapacidade inerente, ele gera em nós desespero e consternação. Ante as afirmações de Jesus, confessamos com Paulo: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Pois um pouco antes ele escrevera: “Porque eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita bem nenhum; pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo” (Rm 7.18). Toda a Bíblia nos faz entender que o homem perdeu sua capacidade de fazer o bem que agrada a Deus (Rm 3.12). Quando o homem natural pratica algum bem, é sua glorificação pessoal que ele busca, não a de Deus. Ele quer ser conhecido por todos como uma pessoa bondosa, que pratica o bem, que ama o próximo. Daí Jesus advertir que o benfeitor não toque trombeta (Mt 6.1-4); não ore para ser visto (Mt 6.5-8); não jejue para despertar simpatia e aplauso (Mt 6.16-18). Talvez uma boa idéia de pecado seja que o homem afastou seus olhos do Criador, pondo-os em si mesmo, vivendo para sua própria exaltação e gratificação. O Sermão do Monte vai de encontro a essa aberração humana. Ser cristão é volver de novo os olhos para o Criador e buscar sua glorificação. 
3.2. A amplitude do padrão moral divino. De um lado está o homem escravizado a seu próprio ego; e, do outro, está o padrão moral divino humanamente inatingível. O Deus perfeitíssimo chama a atenção do homem imperfeitíssimo para a grandeza do padrão divino de uma moral elevadíssima, naturalmente inatingível, que é o segredo da verdadeira felicidade do ser humano. Deus em Cristo não exige do homem nada menos que a perfeição. E Cristo nada ensinou que ele mesmo não tivesse praticado com integridade. Tudo o que ensinou no Sermão do Monte ele o praticou plenamente em sua vida encarnada. Assim ele passou a ser nosso modelo supremo. Então esse Sermão não é simplesmente um código de leis, de normas absolutas e intransigentes, de regulamentos para decorarmos e obedecermos. É muito mais que isso. Por detrás de suas palavras e expressões está Aquele que o viveu e nos abençoa para que o vivamos como novas criaturas e unicamente pela graça. 
3.3. A amplitude da graça divina. O mesmo Paulo que disse: “Desventurado homem que sou ... em mim não habita bem nenhum”, também disse: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.25). Só a graça divina poderia nos dar um referencial tão grandioso e tão belo como o Sermão do Monte. Não existe religião que possua um padrão tão nobre, tão justo e tão perfeito. A graça divina vem ao encontro do homem perdido e o trata como súdito de um reino celestial, com um padrão moral semelhante ao de seu Senhor, com vista ao testemunho de uma vida elevadíssima, na terra, e um futuro glorioso, no céu. Só a graça poderia vir ao encontro do homem, salvá-lo, transformá-lo e considerá-lo filho do Pai celestial. Para isso, o cristão não pode viver uma vida de padrão inferior, porque ele pertence ao Rei do universo. 
4. Quem pode praticá-lo? 
Este Sermão foi enunciado visando ao mundo inteiro? Ele é destinado a todas as classes e a todas as nações? O descrente pode praticá-lo? Deus espera ou exige isso dele? Ou ele é destinado a uma só classe de pessoas? Sim, só pode praticá-lo: 
4.1. Quem já nasceu do alto. Quem se empenharia em vivenciá-lo senão a pessoa que já foi transformada pelo Espírito Santo, à luz do evangelho da graça de Deus? Somente a pessoa, em cujo coração o Espírito Santo plantou a semente do amor a Deus, pode sentir prazer em ler, meditar e querer viver de acordo com este ensinamento de Jesus, a pessoa que passa a andar pela fé. Um coração não-regenerado, que nunca recebeu a luz do alto, jamais iria empenhar-se em viver em conformidade com o padrão do Sermão do Monte (1Co 2.14). 
4.2. Quem é capacitado pelo Espírito. O homem natural é incapaz de agradar a Deus (1Ts 2.15). Somente aquele que é agora habitação do Espírito pode encarar este Sermão e viver por ele infinitamente. “Nossa suficiência vem de Deus” (2Co 3.5). “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). Sim, tudo! O cristão genuíno tem condição infinita de viver o padrão divino de vida. Não existe limite no conteúdo do Sermão do Monte e nem na possibilidade de o cristão praticá-lo, pois a capacidade que o Espírito lhe concede é sem fronteiras. Paulo estava certo, pois ele experimentou a plenitude do Espírito (1Co 2.15, 16). Cristo morreu para capacitar-nos a vivermos pelo padrão do Sermão do Monte. Não significa que, enquanto aqui vivermos, faremos isso com perfeição. Isso seria impossível! 
4.3. Quem visa ao reino de Cristo, presente e futuro. Se o propósito do homem natural se limita à presente vida, o do homem espiritual não se limita a esta vida, pois penetra o futuro e descansa na eternidade. Contudo, o crente visa também ao presente. Sua eternidade começa aqui mesmo, quando conhece Cristo e seu evangelho. O Sermão do Monte age para seu bem, para o bem do próximo e para a glória da Trindade. Aqui ele se torna um grande cidadão, responsável e amoroso. Ele busca o progresso altruístico da sociedade humana. No porvir, ele participará do novo universo. Aliás, o Sermão do Monte prepara o cidadão da Nova Jerusalém, para um dia viver ali sob o cetro do Rei dos reis. 
4.4. Quem está disposto a pagar o preço. Para se participar do Sermão do Monte é preciso muito esforço, poder e boa vontade (Mt 11.12; Lc 13.24; Rm 12.17; Ef 4.3; 1Tm 4.6-16). O Cristianismo é a religião do esforço abençoado, do sacrifício positivo e compensativo. O Sermão do Monte só pode ser vivido por aqueles que se esforçam e se dispõem a pagar o preço estipulado por ele, olhando sempre para o alto, lutando contra sua própria natureza ainda rebelde, imitando dia a dia o caráter de seu divino Mestre. 
Conclusão 
O ideal de Cristo para o redimido é nada menos que a perfeição. Ele veio redimir e aperfeiçoar um povo que seja nada menos que seu próprio povo. Portanto, o alvo do cristão é ser semelhante a seu Senhor. 

Medite e responda
1. O Sermão do Monte abrange quais capítulos de Mateus? 
2. Das concepções humanas, qual é a mais provável? 
3. Quais os quatro significados deste Sermão? 
4. A quem o Sermão do Monte se destina? 


Estudo 2 
O CARÁTER DO CRISTÃO 
Mateus 5.3-12 
Plano semanal
1. Os justos (Sl 1.1) 
2. O perdão (Sl 32.1, 2) 
3. O temor do Senhor (Sl 112.1) 
4. Crendo nas profecias (Ap 1.3) 
5. Morrendo no Senhor (Ap 14.13) 
6. As bodas do Cordeiro (Ap 19.9) 
7. Vestes lavadas (Ap 22.14) 
Objetivo do estudo
Ensinar que a felicidade não consiste propriamente em obedecer a regras em forma de lei impessoal, mas em imitar uma pessoa que viveu a plenitude da vida feliz em comunhão com seu Pai celestial, a despeito de nós. 
Para memorização
“Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste?” (Jo 20.29). 
Para meditação: Salmo 1 
Para o início da aula: Mateus 5.3-12 
Introdução 
Não temos aqui oito classes de cristãos. Jesus está detalhando a vida pessoal e prática de cada um de seus seguidores. Cada um de nós pode e deve possuir toda essa gama de virtudes que caracterizam a vida daquele que nasceu do alto. Todo cristão, pois, é pobre em espírito, chora, é manso, tem fome e sede de justiça, é misericordioso, é puro de coração, é pacificador, é perseguido por causa da justiça. Naturalmente, há diferenças (entre um e outro), segundo a estatura e a estrutura que cada um possui. Vejamos: 
1. As pessoas descritas
Jesus declara que essas pessoas são bem-aventuradas. O que realmente esta expressão significa?

1.1. No original ela é mais forte. Quão ditoso é ...! Quão feliz é ...! É mais forte do que dizer simplesmente: Bem-aventurado é aquele que ...! 
É mais forte porque expressa não um simples desejo de que alguém alcance a glória futura, em algum céu remoto e indefinido. É a exclamação forte e segura proveniente da alegria íntima e consistente por algo que já existe; não uma vaga esperança, mas uma certeza alegre por um futuro que já se faz presente. Tal visão faz o cristão otimista e feliz a despeito de
1.2. Sua natureza. O termo bem-aventurados, empregado no início de cada fase, geralmente era usado para descrever os deuses. De fato, na fé cristã há uma alegria tão profunda e perene, a despeito de, que possui a natureza divina, pois é a alegria de Jesus Cristo mesmo (Jo 17.13; 16.20, 22, 24). Essa felicidade é um estado perene da alma, capaz de perdurar em meio às agonias passagens da presente vida. A pessoa que a possui pode desesperar-se em algum instante, quando esmagada por infortúnios temporais e passageiros. Essa felicidade, porém, não evapora quando somos assaltados pela dor. 
1.3. E quem são esses felizes, a despeito de? Pertencem a uma classe especial de privilegiados? São “os perfeitos” de algumas religiões? São os afortunados de outras? São alguns super-crentes? São alguns carismáticos que falam com Deus pessoalmente? Que de vez em quando vão ao céu e voltam? Claro que não! Alguns nem mesmo se percebem ou são percebidos. Alguns dentre eles só serão conhecidos no céu, como o Lázaro da parábola de nosso Senhor. Todavia, uma coisa é certa: todos os bem-aventurados foram, são e serão alcançados pela graça transformadora e salvífica de Deus em Cristo. São todos eles habitação do Espírito de Cristo. Todos alcançaram e alcançam o evangelho do reino, aspiram fazer o bem ao semelhante e alcançar a glória futura. Todos eles têm Cristo como sua glória e felicidade máximas. 
2. Suas qualificações
2.1. Os pobres de espírito. Pobres em espírito, não em espiritualidade, e sim com respeito a seus espíritos, ou, seja, são aqueles que se converteram de sua pobreza espiritual. Tornaram-se cônscios de sua miséria e necessidade. Seu velho orgulho foi quebrado. Puseram-se a clamar: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador” (Lc 18.13). São de um espírito contrito e temente diante de Deus (Is 66.2; 57.15). Perceberam sua total miséria (Rm 7.24); não esperam nada de si mesmos; esperam tudo de Deus! Nada podem em si mesmos; tudo podem em seu Senhor Jesus Cristo. O mais rico dentre eles (materialmente falando) ainda confessa: “Miserável homem que eu sou!” Nada tem a ver com a pobreza material, embora a maioria deles seja pobre de bens terrenos. Há pobres de bens terrenos que são mais orgulhosos e avarentos que muitos ricos! Há pobres que amam coisas mais que a maioria dos ricos! 
2.2. Os que choram. Não todos os que choram. Há choro de procedência pecaminosa. O choro venturoso é aquele que é derramado diante de Deus. Há nessa alma uma profunda necessidade de Deus (Sl 42.2, 3, 5, 11). Pedro, após negar tão lamentavelmente a seu bendito Senhor, caindo em si, chorou amargamente (Mt 26.75). Filho de Deus não é propriamente aquele que nunca comete erro algum, mas aquele que, depois de o cometer, sofre porque o cometeu. O pecado traz tristeza, primeiro ao coração de quem o comete, caso seja este um verdadeiro filho de Deus. Mas aqui está também presente o choro de solidariedade, de sensibilidade ante o sofrimento do próximo. Não é esta precisamente a recomendação do apóstolo (Rm 12.15)? Não foi precisamente esta a atitude de nosso Senhor (Lc 19.41-44; Jo 11.35)? 
2.3. Os mansos. Esta não é a qualidade dos covardes, dos indecisos, dos tímidos. É a qualidade de Jesus (Mt 11.29). Na língua portuguesa, e no conceito brasileiro, esta qualidade não é uma boa virtude. No conceito de Jesus, porém, manso é alguém cujo íntimo é dominado pelo Espírito de Deus, capaz de vencer o ressentimento, o rancor, a explosão momentânea; em vez de seguir seu caminho ruminando as injúrias recebidas, ele encontra seu refúgio no Senhor, e deposita nele toda sua confiança, esperando sempre em sua providência. Ser manso é ser como Jesus: paciente, silencioso, solidário, perdoador, compreensivo. 
2.4. Os famintos e sedentos de justiça. Esta justiça consiste numa perfeita conformidade com a vontade e retidão de Deus. É uma justiça antes de tudo imputada (atribuída) (Gn 15.6). O homem não a merece diante de Deus. Nenhuma obra boa pode expiar seu pecado (Is 64.6). Nenhuma cerimônia humana pode lavar sua maldade inerente (Jr 2.22). Nenhum sacrifício pode extirpar a culpa de sua alma (Sl 40.6). Ninguém é justo diante de Deus (Jó 9.2; Rm 3.10). O crente se esconde na justiça do Filho de Deus, o Senhor Justiça Nossa. A justiça deste é a justiça daquele. O Pai aceitou de bom grado a justiça de seu bendito Filho; e o crente já está escondido nesse bendito Filho que é também seu eterno Salvador (Cl 3.1-4). 
Foi nessa situação irremediável e insustentável que o Filho de Deus entrou. É só associar Isaías 53 com o Calvário, e veremos como Deus aplicou sua justiça no Cordeiro, e ele assim se tornou “Jeová justiça nossa” (Jr 23.7); “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). O novo universo será à base de justiça (2Pe 3.13). O cristão não é apenas um ser justificado por meio da fé; ele mesmo é justo e promotor da justiça. 
2.5. Os misericordiosos. Misericórdia é o amor em ação em favor de quem vive em plena miséria; é o espírito de perdão que age em favor de quem merece a vingança ou o desprezo. Ela é lindamente exemplificada no bom samaritano e, sobretudo, no próprio Senhor Jesus. Ela tem de ser exercitada pelos filhos de Deus, súditos do reino eterno, porquanto Deus, em Cristo, a exercitou e a exercita em favor deles, perdoando suas culpas e abençoando suas vidas. A misericórdia humana tem por base a misericórdia divina, e esta é infinitamente maior que a nossa. Nós perdoamos nossos iguais; Deus, porém, perdoa seres indignos, sendo ele mesmo o Deus perfeitíssimo e justíssimo. Com sua justiça, ele julga e condena o ímpio; com sua misericórdia, ele perdoa e recebe esse mesmo ímpio arrependido e quebrantado. É por isso que os pecadores penitentes se aproximam dele suplicando: “Tem misericórdia de mim!” O cristão que não é misericordioso não tem o direito de esperar que Deus o seja para com ele. Quem é inclemente nunca experimentou o efeito da misericórdia do Deus compassivo. Quem já a experimentou possui um coração perenemente quebrantado. 
2.6. Os limpos de coração. Como é possível que um pecador seja limpo de coração ou de coração limpo? O salmista pergunta e responde (Sl 24.2, 3). E Jesus se refere a Natanael como sendo “verdadeiro israelita em quem não há dolo” (Jo 1.47). Puro de coração não é alguém que não peca, e sim aquele que é sincero, honesto, íntegro. Noé era homem íntegro (Gn 6.9). Jó, igualmente, era íntegro e reto (Jó 1.8; 2.3, 9). Deus é bom para com os de coração limpo (1Tm 1.5; 2Tm 2.22; 1Pe 1.22). Mas é preciso ter em mente que sinceridade não é sinônimo de certeza. Uma pessoa pode ser sincera e estar equivocada. O cristão deve ser sincero, honesto, porém deve igualmente estar certo em sua fé e em seu testemunho cristão. 
2.7. Os pacificadores. Estes são aqueles que receberam de Deus, em seus corações, o dom de sua paz, por meio de sua reconciliação (2Co 5.18-20). Agora são instrumentos da paz. Pacificadores genuínos são todos aqueles cujo líder supremo é o Deus da paz (1Co 14.33; Ef 6.15; 1Ts 5.23); que aspiram viver em paz com todos os homens (Rm 12.18; Hb 12.14); proclamam o evangelho da paz (Ef 6.15) e modelam suas vidas em harmonia com o Príncipe da Paz (Jo 13.12-15; Mt 10.8). 
2.8. Os perseguidos por causa da justiça. Todo cristão genuíno, de uma forma ou de outra, é perseguido por causa de sua vida cristã, que naturalmente depõe contra a vida do descrente dissoluto. Quando sua fé se desenvolve a ponto de se manifestar exteriormente, de modo que os que não participam com ele da mesma experiência, começam a notar, então o resultado é algum tipo de perseguição. É a justiça que motiva tal perseguição. O caráter genuinamente cristão é um constante protesto contra o caráter de seus opositores. Esta é a razão por que o “mundo” odeia os filhos de Deus (Mt 10.22; 24.9; Jo 15.19; 1Jo 3.12, 13). Estas duas classes de pessoas são como o óleo e a água: não se misturam! Uma olha para baixo; a outra, para o alto. Uma ama e busca as coisas aqui de baixo; a outra tem seu coração já no céu, onde bem saber habitará para todo o sempre na presença de seu bendito Senhor. Uma é governada pelo espírito do príncipe das trevas; a outra é governada pelo Espírito do Deus vivo. Uma é sempre movida pelo ódio e vingança; a outra é perenemente movida pelo amor e perdão. 
3. Sua herança
Eis a herança dos bem-aventurados: deles é o reino dos céus; serão consolados; herdarão a terra; serão fartos; alcançarão misericórdia; verão a Deus; serão chamados filhos de Deus; será grande seu galardão nos céus. É um grande peso de glória! Realmente dá para enfrentar o mundo com otimismo e viver para e por Cristo com toda a segurança! Quantos há que jamais serão herdeiros de coisas terrenas, no entanto já são herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo dos bens vindouros. Daí o grande dilema do apóstolo (Fp 1.22, 23). É a herança entre os que são santificados (At 1.14). A riqueza da glória de sua herança (Ef 1.18). A herança dos santos (Cl 1.12). A recompensa da herança (Cl 3.24). A promessa da eterna herança (Hb 9.15). Herança incorruptível (1Pe 3.9). A fim de receber bênção por herança (1Pe 3.9). Ricos em fé e herdeiros do reino (Tg 2.5). Herdeiros da mesma graça (1Pe 3.7). 
A idéia do cristão como herdeiro de Deus e co-herdeiro com Cristo deve ser forte incentivo e encorajamento para a presente vida de nossa peregrinação (Ef 3.11, 12). É por isso que nos alegramos na esperança (Rm 12.12), a qual é chamada boa esperança (Sl 16.9; 22.9; 31.24; At 24.15; 28.20; Rm 15.13) e a consolação da esperança (Jó 11.18; Sl 146.5; Pv 10.28; Ef 4.4; Cl 1.5; Hb 3.6). 
Tudo isso se destina a cada cristão, individualmente, não a várias classes de cristãos, cada um com seus méritos e privilégios. Cada redimido é detentor de todas as bem-aventuranças e do que emana delas. 
Conclusão 
Jesus Cristo é o homem perfeito das bem-aventuranças. Ele não só as possui, como também as viveu em sua plenitude, e se tornou o Juiz perfeito do cristão na conquista da plena felicidade. É em Jesus mesmo que reside nossa bem-aventurança. 
Medite e responda
1. Quantas são as bem-aventuranças? 
2. A quem são prometidas? 
3. O mundo, que não conhece nosso Senhor, pode praticar as beatitudes? 
4. Por quê? 
5. É possível viver as beatitudes fora de Jesus que as ensinou? 
6. Por quê? 
Estudo 3 
O PROPÓSITO DO CRISTÃO 
Mateus 5.13-16 
Plano semanal
1. Sal e paz (Mc 9.50) 
2. Palavra temperada (Cl 4.6) 
3. Luzeiros no mundo (Fp 2.15) 
4. Filhos da luz (Tg 5.5) 
5. Fruto da luz (Ef 5.9) 
6. Armas da luz (Rm 13.12) 
7. Conversão para a luz (At 26.18) 
Objetivo do estudo
Ensinar que grande é a responsabilidade da igreja e de cada cristão de influenciar salvífica e construtivamente o mundo em meio do qual vive. 
Para memorização
“Pois outrora éreis trevas, porém agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Ef 5.8). 
Para meditação: Salmo 41 
Para o início da aula: Mateus 5.13-16 
Introdução 
À luz do presente texto básico, é oportuno e mesmo necessário fazer-nos as seguintes perguntas: (1) Com relação ao cristão, como filho de Deus, no tocante a sua vida no seio da sociedade incrédula, por que Deus o elegeu antes da fundação do mundo (Ef 1.4), fê-lo vir à existência, chamou-o à fé em Cristo e o pôs no seio da igreja? (2) O cristão tem um propósito definido a cumprir em relação a seu semelhante? (3) Ou foi salvo e destinado ao porvir, sem qualquer objetividade na presente vida terrena? Lembremo-nos de que Deus não usa anjos nem espíritos desenvolvidos para transmitir suas boas-novas e abençoar os homens com a salvação em Cristo (1Pe 1.12). O único evangelho é o de Cristo, e ele só pode ser transmitido pelos redimidos, que se tornam os arautos deste evangelho de vida eterna. Vejamos nosso papel neste mundo como redimidos e arautos de Jesus Cristo. 
1. Ser sal
“Vós sois o sal da terra.” Por que Jesus usou a figura do sal para descrever a função do cristão no seio do mundo? Naturalmente, é por causa de sua
1.1. Utilidade. “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). Não seria interessante se cada pecador salvo fosse imediatamente trasladado para a glória, à semelhança de Enoque e Elias? Mas não é o que ocorre. Ele é salvo e mantido onde está. Ele fica aí, porém poupado do mal que destrói. O sal só é útil quando utilizado. Se ele fica guardado, que utilidade tem? E que imensa utilidade tem o sal! Existe alguma casa sem a presença dele? Que desgosto quando o médico subtrai o sal a alguém! Então é que se descobre o quanto ele é valioso. O cristão, a quem o mundo mais odeia, é a pessoa a quem o mundo mais deve! Quão útil tem sido o cristão para o mundo! Este nunca mais foi o mesmo desde que Jesus veio e estabeleceu aí sua igreja. É verdade que ela sempre experimentou altos e baixos. É verdade que a apostasia sempre esteve presente nela. Contudo, que bênção é a presença do cristão na política, na educação, na ciência, no comércio, no proletariado, na agricultura, no exército etc. Tem havido fracasso? Evidentemente que sim. Mas, ao somar e subtrair, o saldo é sempre positivo. O fato é que o cristão é sempre mais útil e benéfico do que o não-cristão. Como em Sodoma, Ló impediu que esta fosse há muito destruída, assim o mundo já teria sido destruído pelo Supremo Juiz se não fosse a presença do cristão nele. Portanto, o mundo deveria ser perenemente grato a Deus pela presença dos cristãos em seu seio! 
1.2. Sabor. Palavra temperada, equilibrada, agradável (Cl 4.6). Vida cristã saudável, mantida pelo Espírito Santo, é de fato agradável. Como é belo viver Cristo! (At 2.46, 47). 
É evidente que a igreja primitiva tinha que crescer, porque desfrutava a simpatia do povo. O sal na igreja era tão evidente que uma de duas coisas acontecia: ou o indivíduo se convertia, ou ficava zangado e perseguia a igreja. A igreja moderna precisa do tempero da igreja primitiva. 
1.3. Preservação. Naqueles tempos antigos não existia refrigerador; não se podia produzir gelo artificialmente para a conservação de coisas perecíveis. O sal era o único elemento usado para preservar essas coisas frescas e livres de deterioração. 
O cristão é comparado ao sal. Sua presença na sociedade, sua palavra empenhada e atos justos agem como preservativos a evitar a total deterioração dessa sociedade. Quão mais corrupto seria o mundo sem a vida, sem a palavra e sem as orações dos cristãos! Numa palavra, a influência cristã no mundo o tornou suportável. Tudo quanto é bom e belo no mundo foi implantado e mantido pelos cristãos. O diabo faz de tudo para destruir o sal da igreja, a fim de que não só ela não pereça, mas também o próprio mundo não pereça de vez. 
Os bem-aventurados são pessoas úteis, agradáveis, cuja influência permeia a vida social em seus vários segmentos e níveis. Cada cristão deve ter a consciência de que sua vida age à semelhança do sal. 
2. Ser luz
O judaísmo dos dias de Jesus falava, sem rodeios, de Deus como a luz do mundo, mas aplicava também este termo à Lei e ao povo de Israel. Ao agir assim, punha-se em sintonia com o Antigo Testamento, onde Deus é considerado a fonte de toda a luz (Gn 1.3-5; Sl 36.9; 104.1, 2). Sua palavra é luz (Sl 119.105). O Servo de Deus é chamado “luz para os gentios” (Is 42.6; 49.6), e a aurora messiânica raia como luz que se derrama no mundo todo. Jerusalém é iluminada por essa luz, e por sua vez ilumina as nações (Is 60.1-3; 60.19, 20; ver Is 8.22–9.2). Esta luz de Deus que ilumina o mundo é sua verdade, sua justiça, sua fidelidade, seu amor (Is 42.1-7; Sl 36.5-10). 
Essas promessas messiânicas vêm a lume em Mateus 5.15, 16. Na pessoa de Jesus, a luz prometida derrama-se sobre o mundo. Ele mesmo é a luz do mundo; ele se fez visível aos homens (Jo 1.1-13; 8.12; 9.5; 12.46; 2Co 4.6). Jesus dizia a seus discípulos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5.14). Por sua vez, os discípulos são agora os condutores, refletores e testemunhas da luz que emana de Cristo (Fp 2.15; Ef 5.8, 14). Eles não podem manter-se dentro da órbita da luz sem refleti-la. Esta luz não pode ser escondida, como não o pode uma cidade edificada numa colina. Qualquer viajante pode vê-la de longe. Semelhantemente, uma lâmpada é acesa a fim de iluminar toda a cada. Quem sonharia em manter essa luz debaixo de um objeto? Sua razão de ser é iluminar a todos os que se acham presentes. 
Ser luz é fazer as obras da luz, é manifestar a luz por meio de palavras, comportamento e atos; ninguém pode enganar-se no tocante à origem de tais obras. Aqueles que as presenciam “glorificam ao Pai que está no céu”. As obras meramente humanas podem suscitar o louvor dos homens. As obras da luz direcionam nossa atenção para Aquele que é a fonte da luz. 
A igreja que se fecha ante as necessidades do mundo está escondendo a luz de Cristo. Irradiar a luz de Deus – sua verdade, seu amor – é a razão da existência da igreja. A função da luz é estabelecer as pessoas e as coisas em sua verdadeira proporção; é revelar sua real natureza; ela existe para produzir vida, alegria, beleza, e para aquecer o mundo no fogo do amor de Deus e da ação dinâmica e constante do Espírito Santo. 
3. Ser bênção
Enfeixando todas estas idéias, podemos imaginar Jesus dizendo: “Vocês devem ser uma bênção para o mundo todo. Ninguém pode desculpar-se de nunca ter visto a glória de Deus, porque essa glória é refletida pela vida de vocês, que são canais através dos quais a graça de Deus flui para o mundo. Este é abençoado e preservado através da convivência com vocês, que são o sal e a luz, que salga e ilumina. Sem a presença de vocês, o mundo já estaria completamente deteriorado e completamente no escuro. Vocês foram abençoados para que pudessem abençoar. Aquele que não é bênção é porque nunca foi abençoado com a graça de Deus. Alguém só pode dar do que possui; se nada possui, também nada pode dar. Não estou dizendo que vocês possuem sal e luz; estou dizendo que vocês são sal e luz. Portanto, se vocês são sal e luz, então é inevitável que salguem e iluminem. Quem nasce de cima igualmente se transforma em sal e luz para abençoar o mundo. Que vocês sejam uma grande bênção para este mundo insosso e escuro, para que eu não o destrua de vez.” 
“Assim brilhe vossa luz.” Jesus não se contenta em afirmar que o cristão é luz; ele ordena que essa luz brilhe. Não somos simplesmente abençoados; este fato envolve outro: temos que distribuir essa bênção divina, sendo todos nós veículos de bênção para os que nos cercam. O mundo mesmo é abençoado pela presença do cristão em seu meio. 
Essa bênção tem dois aspectos: um positivo e outro negativo. Este age no sentido de refrear o mal; aquele, de estimular o bem. O mundo não é pior por causa da ação do Cristianismo em seu seio; e, desde que Jesus implantou sua religião no mundo, a humanidade conheceu seus efeitos celestiais. O temor de Deus nos desvia do mal; seu amor nos induz ao bem. Esta é a finalidade secundária do crente, pois a finalidade primária é dar glória a Deus; é fazer com que o mundo mesmo glorifique ao Criador e Sustentador de todas as coisas criadas. É verdade que fazer o bem aos outros é uma das principais formas de glorificar a Deus, porque o cristão não só faz o bem, como também induz seu semelhante a fazê-la por sua vez. 

Conclusão 
No Sermão do Monte tudo redunda em dois propósitos globais e supremos: a glória de Deus e a felicidade humana. A ordem não pode ser alterada. Quanta honra e quanta responsabilidade! Tomemos cuidado: assim como o sal se perde no processo de preservação da carne, também a luz se consome a si mesma. Esta é valiosa, porém custa muito. Quando vemos uma luz, sabemos que algo está queimando e se consumindo. 
Medite e responda
1. O cristão possui ou ele é sal e luz? Explique. 
2. Quais são as três propriedades do sal? 
3. Sendo sal e luz, Jesus quis dizer que o cristão é mesmo o quê? 
4. Por que o cristão é sempre menos do que Jesus exigiu? 
Estudo 4 
OS DIREITOS HUMANOS 
Parte 1 
Mateus 5.7-32 
Plano semanal
1. Lei protetora (Sl 119.92) 
2. Decretos divinos (Sl 119.135) 
3. Praticantes da palavra (Tg 1.22) 
4. Triunfo da misericórdia (Tg 2.13) 
5. Impureza purificada (2Co 7.1) 
6. Exemplo de punição (Rm 1.24-27) 
7. Novidade de vida (Rm 6.4) 
Objetivo do estudo
Descobrir na perfeição da lei a vontade de Deus para vermos em Cristo o próprio modelo de nossa perfeição. 
Para memorização
“Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39). 
Para meditação: Salmo 19.7-14 
Para o início da aula: Mateus 5.7-32 
Introdução 
Após discorrer sobre o caráter do filho de Deus, em termos gerais, Jesus agora se volta, de forma admirável, para as particularidades do comportamento do cristão para com seu semelhante – crentes e descrentes! Antes de falar sobre os direitos do semelhante, com preferência à vida e ao sexo, Jesus realça de forma admirável a essência, a natureza e o propósito da lei. Ele põe o homem diante de Deus, para em seguida pô-lo diante de seu igual. Se a relação do homem não for antes vertical, sua relação horizontal será desastrosa, como de fato o é. Vejamos, pois: 
1. O cristão e a lei (5.17-20). 
A origem do homem e a origem da lei que o deve reger são verticais, vêm do trono de Deus. O homem foi criado parecido com Deus, não igual a Deus, como insinuou Satanás ao casal. Portanto, ele foi criado como o ser mais responsável diante de todas as demais criaturas. O homem, cedendo à insinuação do inimigo, de ser ele como Deus, fracassou. Deus, porém, assim mandou seu Filho Unigênito para salvá-lo e mostrar-lhe: 
1.1. A essência da lei. Em Cristo, a essência da lei se realça: (a) Cristo remove da lei os conceitos humanos, os quais se tornaram como que um invólucro, uma casca da lei, sepultando-a fundo, prejudicando sua essência, sua natureza, seu propósito. O “eu, porém, vos digo” de Cristo não invalidou a essência da lei; ao contrário, (b) mostra sua perfeição. Ela procede de Deus. Por isso, não se pode tirar dela nem um i nem um til (5.18). Jesus não alterou a essência da lei divina. Quando o salmista diz que “a lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma” (Sl 19.7), pelo Espírito Santo ele está realçando a mesma essência da lei que Jesus realçou. Quando Paulo diz: “... a lei é santa, e o mandamento, santo e justo e bom” (Rm 7.12), ele se refere à essência da lei divina. Tudo o que vem de Deus só pode ser bom, porque a perfeição é um de seus atributos. 
1.2. A natureza da lei. A lei, por sua própria natureza, exige cumprimento, obediência, e nem podia ser de outra forma. Toda lei (humana ou divina) é promulgada com o fim de ser respeitada, obedecida, cumprida, visando ao bem comum. (a) O homem fracassou completamente no Éden, como foi dito no item anterior. Por quê? Porque a lei exige cumprimento pleno, perfeito. E o homem a cumpre assim? Não! “Pois, qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça num só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Esse é o desespero do homem; por isso, (b) Jesus triunfou plenamente sobre (1) a lei cerimonial, consumando-a no Calvário. Ali ele esgotou este aspecto da lei. Cada sombra da lei foi derramada sobre ele, e dele brotou toda a realidade para a qual a lei apontava. (2) Sob a lei moral, obedecendo-a perfeitamente. “Não vim para revogar [anular]; vim para cumprir” (Mt 5.17). 
A lei, em Cristo, não é anulada, e sim cumprida = obedecida e consumada. 
1.3. O propósito da lei. A lei revela: (a) a realidade da vontade divina. Por toda a santa Escritura nos deparamos com este fato. Deus deu a lei para que sua santa e soberana vontade fosse conhecida pela humanidade toda, extensivamente. O mundo a rejeita, porém a igreja nela se alegra. (b) O estado real do homem. Lemos em toda a Bíblia que o homem foi atingido pelo pecado em toda sua natureza (Rm 3.10-18): a imagem de Deus foi nele danificada – a alma, o corpo, o coração, a mente, a vontade (arbítrio). É preciso ignorar tudo isso para afirmar que o homem, ainda, possui o livre-arbítrio como foi criado. (c) A necessidade de o homem entrar em sintonia com Deus. O homem, pela queda, tornou-se alienado de Deus, ou, seja, perdeu sintonia com seu Criador. Cristo o transforma, o põe outra vez em sintonia com Deus e o capacita à vida segundo o padrão divino. Jesus diz que na igreja existirá sempre duas classes de pessoas, e que ambas transmitem o que adotam: 
Violar – observar – ensinar. Antes de passar adiante, Jesus reforça a idéia de que, em seu reino, os filhos de Deus devem exceder, em sua vida prática, aos filhos das trevas (v. 20). Exceder significa estar acima de, ir além de, ultrapassar. Se a religião de Jesus não for melhor que as religiões do mundo, então não há qualquer vantagem em aderir a ela. Se a vida dos filhos da luz não for superior à vida dos filhos das trevas, que vantagem existe em ser cristão? Então ele prossegue: 
2. O cristão e a vida (5.21-26). 
Pelo prisma do supra-exposto é que vamos entender o presente texto. Em seu primeiro “Eu, porém, vos digo”, Jesus não anula a lei referente à vida do semelhante, porém realça o órgão receptor da lei: o coração humano. O problema não está na lei, e sim no coração do homem. Não existe erro na lei; o coração do homem é que está errado. Não existe incapacidade na lei, e sim no homem de cumpri-la perfeitamente. Começou com Caim, e não parou mais. “Irou-se, pois, sobremaneira Caim, e descaiu-lhe o semblante” (Gn 4.5). Espera-se encontrar tal descrição num manual de psicologia moderna, porém ela se acha no primeiro livro da Bíblia, bem no início. Caim começou a matar seu irmão no exato momento em que a ira dominou seu coração e, conseqüentemente, anuviou seu semblante. Milênios mais tarde o escritor sagrado registrou: “Guarda teu coração” (Pv 4.23). Que maestria! Que verdade! Tudo o que devemos guardar é nosso coração! Por quê? Porque ele extremamente enganoso (Jr 17.9). 
E o supremo psicólogo, Jesus Cristo, é ainda mais contundente: “Não é o que entra pela boca o que contamina o homem” (Mt 15.11). “Porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45). “Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19). É com o coração que o indivíduo julga seu irmão, xinga seu vizinho (v. 22). O inferno começa no coração de uma pessoa e se caracteriza na inveja, no ciúme, na raiva contra alguém. Assim como o céu está presente num coração amoroso e feliz, o inferno está presente num coração revoltado, dominado pelo ódio. 
Jesus diz que não adianta tentar ludibriar-se indo ao templo e prestando a Deus um culto pretextual, imaginando ser esse o caminho para se angariar a graça de Deus (vv. 23-25). A paz de Deus não se conquista com falsos expedientes. Só a reconciliação e o perdão nos reconduzirão às boas graças e à paz com Deus e com o semelhante. Como evitaremos o inferno objetivo, se o inferno subjetivo se assenhoreia ferrenhamente de nós? 
Jesus quis, com esta ilustração, demonstrar (a) que, potencialmente, todos nós somos assassinos. Não há razão para vanglória. Se nunca matamos alguém, literalmente, matamos muitos em nosso coração, em nosso desejo. Somos todos culpados diante do trono do Criador. (b) Há profunda necessidade de, em Jesus Cristo, descobrirmos esta tremenda realidade e nos revestirmos de humildade diante de Deus e dos homens. (c) Unicamente Cristo pode curar-nos e mudar nosso coração, mediante o perdão e a regeneração operada pelo Espírito Santo. Saulo de Tarso foi um grande assassino (At 8 e 9). Esse mesmo Saulo, agora Paulo, escreveu o capítulo 13 de 1 Coríntios. Só o amor de Deus, em Cristo, substitui os sentimentos do velho homem, desenvolvendo no interior de cada um de nós as belas e sublimes emoções do novo homem. Menos que isso equivale a continuar candidato ao inferno preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25.41). A vida do semelhante é sagrada – só Deus, o Criador, pode dispor dela. Ela lhe pertence, e não a nós. E quem a tirar terá que enfrentá-lo no dia do juízo final, sem misericórdia! 
3. O cristão e o sexo (5.27-32). 
Não só a vida do semelhante é sagrada e deve ser preservada, mas também seu corpo. Jesus está tocando no que há de mais sensível no homem: sexo. A impureza antes de atingir o corpo, está bailando nos pensamentos e nos desejos. Assim, esta seção nos ensina: 
3.1. A profundidade e extensão do pecado. “Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela” (v. 28). “Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério” (v. 32). 
O pecado é a pior enfermidade da natureza humana; é profundo e abrangente; está terrivelmente arraigado em nosso ser (Jr 13.23; Is 1.6). 
Quem jamais olhou para uma mulher (ou a mulher para um homem) isento de segundas intenções? Que homem (ou mulher) pode erguer os olhos para Deus e sinceramente responder a esta pergunta, dizendo: “Senhor, eu, jamais!” Portanto, todos nós, sem exceção, somos adúlteros no coração, na alma, na vontade. Então, qual é a conclusão? 
Vejamos a resposta no último sub-item. 
3.2. A seriedade do pecado. O pecado é tão profundamente arraigado e amplamente difuso na natureza humana, que Jeremias formulou a seguinte declaração e termina com uma indagação: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9). Note bem: (a) afirmação: “Enganoso é o coração.” (b) Comparação: “mais do que todas as coisas.” (c) Intensificação: “desesperadamente corrupto.” (d) Pergunta retórica: “quem o conhecerá?” Pressupondo que ninguém! Nem mesmo eu conheço meu coração. É neste sentido que alguém exorta: “Homem, conheça-se a si mesmo!” Querendo dizer: “se possível!” 
Arrancar o olho, lançá-lo ao longe; cortar a mão, lançá-la ao longe; é melhor perder um membro do que todo o corpo ser lançado no inferno (vv. 29, 30). 
É evidente que aqui não se trata de membros literais de nosso corpo, e sim que trata de membros morais e espirituais de nosso ser, visto que o pecado está radicado na alma antes que no corpo. Este recebe apenas os reflexos dos impulsos da alma. O pecado é tão sério diante de Deus que Jesus usa ilustrações terríveis para nos conscientizar da necessidade imperiosa de fazermos cirurgias radicais em nossa vida. A vida cristã não equivale a brincar de ser religioso. O mal está radicado profunda e extensamente em nosso ser, e precisa ser encarado e tratado com extrema seriedade. A revolta, o medo, o ódio, a insegurança, os traumas, as perversões de nossa natureza, a tara sexual, o sadismo, o masoquismo etc. não passam de matizes do pecado, da deformação da personalidade humana. De nada adianta os apelidos da ciência; não muda nada. De nada adiantam as tentativas de justificar as distorções sexuais do ser humano. Enquanto o pecado não for tratado à luz da revelação divina, nas Escrituras, e do Espírito Santo que Deus nos deu para em nós habitar, a cura não se processará. 
3. A grandeza do remédio. O Sermão do Monte não é uma peça à parte da Bíblia como um todo; só é possível entendê-lo como um texto inserido no grande contexto – a Bíblia em sua totalidade. Enquanto o Sermão do Monte revela a lei de Deus em sua essência e nos desmascara como pecadores que vivem ofendendo o Criador, Deus, por toda a Bíblia, nos fala carinhosamente que existe um remédio eficaz – Jesus Cristo. Eficaz, porque o Cordeiro já bradou no Calvário: “Está consumado!” Tudo foi feito na medida exata, sem faltar absolutamente nada! Nossa salvação foi conquistada plena e definitivamente. O Espírito nos convence a dizer: “Ó Deus, sê propício ao pecador.” (a) Somos convencidos de nosso estado de miséria moral e (b) de nossa dependência total de Jesus Cristo; (c) o perdão é plenário e gratuito (Rm 8.1; Ef 2.8, 9); (d) somos capacitados a viver uma nova vida de confiança, de esforço abençoado, com a presença constante do Espírito Santo em nosso homem interior, a lutar por nós e conosco (Rm 8.26). Ser semelhante a Cristo é nossa suprema aspiração. Tal encorajamento tem por base não só a certeza de perdão da culpa eterna, mas, sobretudo, a certeza de que somos abençoados “a fim de podermos compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.18, 19). A graça perdoa, santifica e fortalece; ela nos conduz ao triunfo! 
Conclusão 
Nestas três porções do Sermão do Monte, Jesus nos põe face a face com Deus e com o semelhante, sobre a base de uma lei justa e perfeita segundo o caráter do supremo Legislador. Jesus nos fez sentir que ser cidadão do reino eterno é algo extremamente decisivo. A graça de Deus é infinita em perdoar o culpado. Ao mesmo tempo, porém, não nos exime de responsabilidade – e que responsabilidade! 
Medite e responda
1. O que você entende por “direitos humanos”? 
2. No presente texto, o que Jesus ensinou sobre os “direitos humanos”? 
3. Antes de se concretizar, o pecado já existe? Onde? 
4. A que atitude o presente ensinamento nos conduz? 


Estudo 5 
OS DIREITOS HUMANOS 
Parte 2 
Mateus 5.33-48 
Plano semanal
1. Quem fala a verdade (Sl 15.1-5) 
2. A vingança de Deus (Rm 12.19, 20) 
3. O amor contrastado (1Co 13.1-3) 
4. O amor analisado (1Co 13.4-7) 
5. O amor defendido (1Co 13.8-13) 
6. Deus é amor (1Jo 4.8) 
7. Deus nos amou primeiro (1Jo 4.19) 
Objetivo do estudo
Enfatizar que os filhos de Deus, herdeiros do reino eterno, participantes da nova aliança, seguem o exemplo de seu Salvador e Mestre, na palavra, na paciência e no perdão. 
Para memorização
“Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é vosso Pai celeste” (Mt 5.48). 

Para meditação: 1 Coríntios 13.1-13 
Para o início da aula: Mateus 5..33-48 
Introdução 
Outra vez temos um universo de ensinamentos práticos que emanam dos lábios de Jesus para tornar-nos sábios e autênticos em nosso viver cristão. Uma palavra franca e sincera, um empenho incansável pela paz e bem-estar do semelhante e o exercício gigantesco do amor que flui do trono de Deus e nos alcança, nos atinge, nos domina, em benefício, agora não do irmão, mas do próprio inimigo. Em tudo isso está envolvida uma terceira pessoa, além de Deus e nós. O Cristianismo é a religião que enfatiza a sociabilidade. Nele ganha real sentido a frase: “O homem não é uma ilha.” Mas é preciso acrescentar: A sociedade humana é um campo de luta pelos interesses espirituais, morais, físicos, enfim, humanitários e eternos do homem. Vejamos mais três lances em que o cristão busca os “direitos” humanos. 
1. O cristão e sua palavra empenhada (Mt 5.33-37). 
A linguagem é o meio de comunicação mais belo e eficaz que Deus deu ao homem: transmite não apenas idéias e intenções, mas também as próprias emoções. Falar bem um idioma é um dom muito precioso, porém melhor ainda é falar a verdade com retidão através desse idioma; falar visando à edificação e ao bem-estar do semelhante. 
O cristão é parte de uma sociedade onde o uso da linguagem é catastrófico. No mundo dos negócios e dos interesses pessoais, a palavra não significa nada. Existe um abismo entre a palavra, a intenção íntima do indivíduo e a concretização dessa palavra. Este nunca expressa sua intenção real, pois, além de não querer comprometer-se, ele perderia muito expressando a realidade de seu íntimo. Daí usar ele de ambigüidades e de sofismas. A expressão, segundas intenções, ganhou tremenda popularidade. Ainda pior: o indivíduo jura por Deus, pela alma da mãe, pela vida dos filhos, por sua “honra”, por tudo quanto de mais sagrado existe, a fim de assegurar-se de que sua “verdade” seja crida e aceita. Nos tribunais, ele jura falsamente com a mão sobre a Bíblia. Isso não o incomoda, contanto que seu problema pessoal seja solucionado. Consciência? Se ainda a possui, está completamente cauterizada, ou a poeira a cobriu totalmente. Atribui-se a Rui Barbosa a afirmação: 
“De tanto ver crescer a injustiça; 
De tanto ver triunfar as nulidades; 
De tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus: 
O homem chega a desanimar-se da virtude, 
E a ter vergonha de ser honesto.” 
Os salmistas sempre se preocuparam com a verdade: falar a verdade (15.2); ser guiado na verdade (25.5); as veredas do Senhor são verdade (25.10); andar na verdade (26.3); alimentar-se da verdade (37.3); a verdade no íntimo (51.6); a graça e a verdade (85.10); a proteção da verdade (91.4). O escritor de Provérbios: minha boca proclamará a verdade (8.7). Os profetas lamentam o desaparecimento da verdade: a verdade está oculta (Is 59.4); a verdade é repelida (Is 59.14); a verdade sumiu (Is 59.15); a verdade alienada da boca (Jr 8.28); o maligno quer destruir a verdade (Dn 8.12); a verdade precisa ser amada (Zc 8.19). Jesus e os apóstolos: a verdade nos faz livres (Jo 8.32); Jesus é a verdade (Jo 14.6); os homens impedem o triunfo da verdade (Rm 1.18); mudam a verdade em mentira (Rm 1.25); o amor se alegra com a verdade (1Co 13.6); a verdade jamais pode ser destruída ou impedida (2Co 13.8); devemos falar só a verdade (Ef 4.25); devemos vestir-nos com a verdade (Ef 6.14); a igreja é a coluna e baluarte da verdade (1Tm 3.15). 
“A boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45). Esta frase revela um fato muito mais profundo do que percebemos à primeira vista. A boca expressa o conteúdo do coração, ou, seja, as palavras são a exata expressão do estado de nosso universo interior. Um íntimo saturado de falsidade gera expressões ou palavras saturadas de falsidade, mesmo quando contenham aparência de verdade. O homem falso tenta ocultar seu íntimo enfermo e degenerado com palavras aparentemente verdadeiras. O íntimo do cristão não é enfermo; embora seja ainda pecador, contudo já não é degenerado; foi curado pelo Espírito de Deus. Todavia, em virtude de a natureza humana ainda ser pecadora, o cristão pode fracassar em momentos difíceis e, portanto, mentir. Não obstante, sua consciência santificada e sensibilizada não permitirá que este seja seu estado permanente, gerando arrependimento e mudança. O cristão precisa temperar sua linguagem com o sal (Cl 4.6) da verdade. 
2. O cristão e suas emoções (5.38-42). 
2.1. Domínio das emoções. Além da veracidade que deve caracterizar o cristão de um íntimo dominado pelo Espírito de Jesus, a própria verdade (Jo 14.6), ele deve também dominar suas emoções. O ser humano natural tem um íntimo explosivo e egoísta. Se tudo fosse orientado pelo “olho por olho, dente por dente”, até que seria suportável, com muita gente sem um olho ou sem um dente. O pior é que, na prática, ninguém se contenta com equiparação: por um olho ou por um dente – ou por muito menos! – muita gente já perdeu a vida. 
2.2. O profundo senso de vingança. O ódio e a violência, a desforra e o desrespeito à vida humana caracterizam nosso mundo. O espírito de vingança potencialmente está presente em todo mundo. Cada um de nós é portador deste gérmen tão pestilento e mortífero. Violência em casa, nos estádios esportivos, nos lugares de lazer; violência nos órgãos públicos e governamentais, nas escolas, nas praias; violência nas favelas, nos cortiços, nos campos rurais; violência na alta sociedade e nos lares suntuosos e aparentemente felizes; violência na religião. Cada um pensa em si e busca satisfazer seu espírito egoísta. Cada um está preocupado com seus direitos pessoais. 
2.3. A religião de Jesus é o oposto de tudo isso. Daí o uso que ele fazia de figuras (vv. 39-41). Face, túnica, milha (ou quilômetro) são figuras que Jesus usou para ilustrar o espírito que deve governar as emoções do cristão. Este cultiva o espírito negativo de não-violência; ele cultiva o espírito positivo de solidariedade e exemplo. As religiões orientais desafiam o Cristianismo em seu espírito de não-violência; todavia, o Cristianismo tem muito mais a oferecer: em seu espírito de solidariedade (v. 42); ele busca, de forma dinâmica, a solução dos problemas do mundo. Não só protesta contra a violência que extermina, porém vive a vida de forma construtiva e exemplar. Luta pelos direitos do semelhante, sem descuidar-se do triunfo da justiça. 
2.4. Realce necessário. É preciso realçar que o cristão não vive em prol de suas causas pessoais; sua luta é em prol de todos. Se tiver que contribuir para o bem de todos, do triunfo da justiça, condenando alguém, ele o faz. As figuras empregadas por Jesus não anulam o fato de que o cristão costuma ser duro, quando a isso se vê induzido. Ele aprende com seu divino Mestre: ao ver o santuário profanado, tomou o chicote, e certamente o usou – e bem usado! Jesus nunca ensinou um espírito pusilânime, covarde, inativo, passivo, indiferente. Ele ensinou, sim, o equilíbrio das emoções, para o triunfo da paz, do bem geral, da justiça, do direito sagrado. É fácil? É muito difícil! Mas temos descoberto que, neste mundo, só é valorizado aquilo que custa muito. Daí o Cristianismo ser a melhor religião do mundo! 
3. O cristão e seu inimigo (5.43-48). 
À luz da natureza humana, esta passagem é, provavelmente, a mais difícil da Bíblia. Ela nos faz sentir que o Cristianismo é uma religião praticamente impossível de se praticar. O ser humano acha difícil viver mais ou menos bem com a família, com os parentes, com os amigos íntimos, relevando e mantendo as aparências. O cristão é conclamado a amar o inimigo, a orar por ele e a buscar seu bem-estar. Não obstante, o que realmente significa amar o inimigo? 
3.1. Paridade? Jesus nunca exigiu que amássemos nossos inimigos da mesma forma como amamos a nós e a nossos entes queridos. Aliás, se assim fosse, o Cristianismo seria uma religião estranha e impossível. O amor pelo inimigo é distinto do amor devotado aos íntimos. Nem Deus sente amor igual por todos. Ele amou o faraó como amou Moisés? Ele amou Saul como amou Davi? Jesus amou Judas Iscariotes como amou os demais apóstolos? Um de seus íntimos era conhecido como “o discípulo amado”. Devemos cobrir de beijos e afagos o inimigo, como fazemos com nossos queridos? Jesus jamais ensinaria tal utopia! 
3.2. Que significa? Do amor devido ao inimigo, além do esforço do coração, também participa o esforço da vontade. Amar a quem nos ama é algo natural que segue uma correspondência espontânea. Até mesmo os brutos amam assim. Amar a quem não nos ama, pelo contrário, nos ofende, nos escorraça, demanda esforço e determinação, bem como um motivo muito forte: esse motivo é Deus (Rm 5.7, 8). 
E se Deus nos tratasse como merecemos – como seus inimigos? E se Deus nos tratasse como tratamos uns aos outros? 
Então, o que realmente é amar o inimigo? (a) É não pagar-lhe com a mesma moeda; (b) é não levar em conta o que ele nos fez ou faz; (c) é fazer-lhe o bem, caso surja uma oportunidade para tal; (d) é orar por ele e desejar de todo o coração que ele seja perdoado e abençoado com a salvação eterna. Jesus e Estevão nos deixaram esse exemplo. 
3.3. Quem é nosso inimigo? Certamente, o texto não se refere ao nosso arquiinimigo, Satanás, pois em parte alguma a Bíblia nos intima a devotarmos-lhe amor. A Bíblia, porém, nos ensina a ter-lhe respeito (Jd 8, 9). A referência aqui é a seres humanos como nós. 
(1) O estranho. Em certo sentido bem geral, é todo aquele que nos persegue, direta ou indiretamente; todo aquele que nos prejudica. Em todas as esferas há alguém que se transforma em nosso inimigo gratuito, inclusiva na agremiação dos santos. Não tem nada conosco e nem contra nós, contudo nos faz mal. 
(2) O “amigo”. Davi teve amargas experiências com “amigos” (Sl 41.9; 55.12-15). Jesus também (Mt 26.48-50). De certa forma, torna-se mais difícil perdoar a estes. Sua falsidade dói muito mais, porque antes lhes dedicamos afeição especial. Em certo sentido humano, Jesus perdoou a Judas Iscariotes. 
(3) Familiares. A declaração de Jesus: “... os inimigos do homem serão os de sua própria casa” (Mt 10.34-37) é terrível. É triste, é constrangedor, é difícil de conciliar, é difícil perdoar e esquecer. Traz angústia e amargura profundas. Traz tormentos e prejuízos. Como é difícil deixar este “vale de lágrimas” sem pesares e ressentimentos! Mas o amor tem que triunfar! Se não, o que adiantaria abraçar a religião Jesus e ser seu seguidor? Se não, como seremos tratados por Jesus no dia do grande juízo?  

Conclusão 
O parágrafo termina com o versículo 48: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é vosso Pai celeste.” Este é o alvo a alcançar: perfeito no relacionamento com a lei; perfeito no relacionamento com a vida do semelhante; com a mulher do semelhante (e com o marido da semelhante!); com o mal recebido do semelhante; perfeito no exercício do amor. No entanto, o que significa este perfeito
1. Não significa impecabilidade. Em parte alguma da Bíblia lemos que o homem pode alcançar, nesta vida, a perfeição moral, como ensinado em algumas religiões. A isenção do pecado o homem só alcançará no porvir, após a ressurreição. Dizer que após a morte a pessoa não peca mais é verdade só em parte, pois o espírito já está na presença de Deus e o corpo já está no túmulo, morto. É preferível pensar em impecabilidade quando o espírito e o corpo estiverem novamente juntos. 
2. Não significa igualdade com Deus. Ser santo como Deus é santo, ser perfeito como Deus é perfeito não pode conter a idéia de um dia sermos santos na mesma proporção, intensidade e qualidade da santidade de Deus. É conveniente dizer e pensar em ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito. 
3. Significa maturidade. Paulo, em Filipenses 3.12 e 15, se declara não-perfeito e perfeito. Na verdade ele era perfeito e não-perfeito. Digamos que ele está afirmando ser um pecador perfeito! Era um homem maduro: (a) não era menino, e sim adulto; (b) não era principiante, e sim veterano; (c) não era aprendiz, e sim profissional apto. Hoje usamos o termo perito, experto, ou, seja, alguém bastante apto e qualificado para algum empreendimento específico. Cristão perfeito, maduro, é aquele que se acha habilitado para toda boa obra. Nada menos que isso Jesus Cristo exige daquele que o segue! 
Medite e responda
1. Nos direitos humanos, quais são as partes envolvidas? 
2. Por que o cristão não precisa de duplicidade no falar e agir? 
3. Descreva a importância da verdade. 
4. O que gera a violência? 
5. É fácil amar o inimigo? Por quê? 
6. Quem é nosso supremo exemplo no amor ao inimigo? 
7. Quem é nosso inimigo? 


Estudo 6 
O CRISTÃO E SUA VIDA DEVOCIONAL 
Mateus 6.1-18 
Plano semanal
1. Além da esmola (Lc 10.25-37) 
2. Dar tudo aos pobres (Mc 10.17-22) 
3. O camelo e a agulha (Mc 10.23-31) 
4. Oração gloriosa (Jo 17.1-26) 
5. O jejum agradável (Is 58.6-10) 
6. Ser bom (Mt 25.14-30) 
7. Suprema recompensa (Ap 21.1–22.5) 
Objetivo do estudo
Ensinar que tudo quanto o cristão faz, deve fazê-lo para a glória de Deus (1Co 10.31), e esperar a recompensa que vem tão-somente dele. 
Para memorização
“Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo de teu senhor” (Mt 25.21). 
Para meditação: Salmo 63.1-11 
Para o início da aula: Mateus 6.1-18 
Introdução 
Temos aqui mais uma seção do Sermão do Monte, e nela cabe uma indagação muito oportuna: o que fazemos em prol do semelhante, ou que fazemos em prol da pessoa de Deus, com que intuito ou de que forma deve ser feito? Em outros termos: o que fazemos e o que somos devem chamar a atenção para quem? Daí denominarmos esta seção de: Os atos devocionais do reino de Deus. Os atos caritativos devem revestir-se de caráter devocional, assim como a oração e o jejum. Neles há princípios válidos para todos os atos devocionais dos filhos de Deus. Neles encontramos Deus como o centro motivador dos mesmos. Vejamos esses princípios
1. Discrição (6.1). 
Ser discreto é uma virtude difícil de coadunar conosco, pecadores, que gostamos de aparecer. Por isso esta virtude requer cultivos à base de muito esforço. 
1.1. Delineando. Observemos o imperativo enérgico guardai-vos, que em outras versões lemos tende cuidado; menos forte, evitai. Nosso Senhor põe muito peso em sua advertência, porquanto não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia o que era a natureza humana (Jo 2.25). E como sabia! E ele prossegue em sua advertência enérgica, empregando o imperativo negativo: não toques trombeta; não vos assemelheis. Jesus emprega uma forma incisiva quando quer mostrar gravidade na matéria apresentada. 
1.2. Ponto fraco. O ser humano se deleita com a ostentação, quando lhe convém em prol de seu ego. É próprio de sua natureza. Esta idéia está expressa em duas frases equivalentes: com o fim de e para serem, nos versículos 1, 2, 5, 16, 18. No versículo 2, Jesus usa a figura da trombeta. O homem faz certas coisas, toca a trombeta com o fim de ser visto. Ele quer ser visto no que o exalte, ou no que encubra o que não pode ser visto. Jesus está ensinando ao participante da aliança da graça que este deve ocultar o que deseja publicar, e que deve publicar aquilo que ele deseja manter oculto. Pertencer ao reino de Deus é inverter toda a ordem do homem alienado de Deus. Em secreto é a regra para a prática do bem; perdoar nossas dívidas é a regra para trazer a lume o mal dentro de nós. Jesus, pois, toca o ponto mais frágil do homem. Daniel declara: “A nós pertence o corar de vergonha” (Dn 9.7). E nós confessamos: a Deus pertence toda a glória de nossos atos bons. E assim somos disciplinados e conscientizados de uma terrível realidade: nosso mundo interior tem de ser curado para que possamos permanecer no reino de Deus, isto é, para sermos governados por Deus positivamente, senão seremos governados por ele negativamente. 
1.3. O que Deus vê. Outro motivo para nos munirmos de precaução contra nosso espírito de ostentação é o fato de sabermos que temos de enfrentar a análise do Deus que tudo vê. Aliás, este é para nós algo que preferimos permanecesse escondido. Aquele, porém, que não deveria ver nossos maus atos, nossos maus pensamentos, nossas más intenções, é precisamente ele que e sabe. Este foi o drama do salmista. Ele percebeu que (a) Deus é onisciente (Sl 139.1-6). Ele sonda, conhece, sabe, penetra, esquadrinha; (b) Deus é onipresente (Sl 139.7-12). “Para onde me ausentarei de teu Espírito? Para onde fugirei de tua face?” Céu? Abismo? Alvorada? Confins dos mares? Ele percebeu que, para Deus, trevas e luz são a mesma coisa; (c) Deus é onipotente (Sl 139.13-18). Ele percebeu, extasiado, que Deus o formara, secretamente, no ventre materno; escrevera seus dias num livro, quando sequer um deles havia ainda; determinou antecipadamente cada dia de sua vida; que os pensamentos de Deus são infinitos. Então ele adorou a Deus; execrou a sorte dos ímpios; fez uma linda oração para que Deus o sondasse, o provasse, aperfeiçoasse seu caminho e o guiasse rumo à eternidade (Sl 139.19-24). O melhor a fazer é andar sob a luz do semblante divino. 
2. Caridade (6.2-4). 
Jesus quer ensinar, aqui, através da figura da esmola, que todos nossos atos caritativos devem ser de cunho devocional, ou, seja: tudo o que damos aos necessitados, na verdade estamos dando a Deus, em primeiro plano, caso queiramos que ele aceite nossos atos. Este deve ser um princípio norteador para os filhos de Deus, em contraposição ao que os filhos do mundo fazem. Estes buscam sua glorificação pessoal, visando à satisfação de seu ego depravado. Disto aprendemos que, 
2.1. Desde que o homem é pecador, existe pobreza no mundo. Aliás, foi Jesus mesmo quem o afirmou (Mt 26.11). Perguntamos: Por que Deus não elimina a pobreza, a miséria, a fome? Por que Jesus não fez um grande milagre nesse sentido? Não sabemos. Este é um problema extremamente complexo. O fato é que a pobreza está presente, a nos desafiar, a aguçar nossa piedade, se é que a possuímos. Pode ser que ele queira que seus filhos exercitem o dom da misericórdia! 
2.2. Devemos socorrer porque, ou já fomos, ou podemos ainda ser pobres. Aqui está o princípio da solidariedade despretensiosa, modesta. A Bíblia e a vida real nos têm ensinado que a riqueza terrena não tem estabilidade (Pv 27.24; 1Tm 6.17). Por isso, alguém fez uma oração muito justa: “Afasta de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pv 30.8). E então declara a razão: “para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o Senhor? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus” (Pv 30.9). 
2.3. Quando socorrermos alguém, em nome de Cristo, é a este que damos (Mt 25.40, 45). O desejo de agradar a Deus, com nossas obras, deve nortear nossa vida toda, de tal modo que esqueçamos que fizemos o bem a alguns, de tão desejosos de ver a glória de Deus realçada, e em virtude de sentirmos nossa própria pobreza e carência. 
O que diz aqui acerca da esmola se aplica a todas nossas obras, feitas em Cristo: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para [não por meio de]boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). 
3. Oração (6.6-15)
Enquanto na esmola a pessoa quer ser tida como boa, na oração ela quer ser tida como religiosa ou piedosa. A motivação é a mesma: encobrir o que há de negativo em tal pessoa. Então estudemos esta parte. Aqui Jesus trata da 
3.1. Oração individual. “Tu ... quando orares (v. 6). Temos aqui o sujeito e o verbo no singular, indicando a oração pessoal, secreta. Os líderes religiosos judeus saíam a público para fazer suas orações pessoais em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, com o fim de chamarem a atenção do público que passava e assim serem vistos como devotos, e serem elogiados como pessoas de bem. Jesus está dizendo aos filhos do reino, aos participantes da nova aliança, que a oração individual é feita num lugar reservado, pois ela só interessa a quem a faz e a quem é feita. Oração com exibicionismo é uma triste pantomima. Os atos religiosos não são teatrais; os ritos cultuais não são meros shows. A religião é discreta, profunda, prática e definida. 
3.2. Oração pública e comunitária. “Quando orardes ... não vos assemelheis.” O sujeito e o verbo agora estão no plural, indicando a oração pública, comunitária. Há religiões confundindo as coisas por não perceberem a distinção que Jesus faz. Enquanto estava sozinho, ele passava a noite toda orando; mas, não era assim quando estava com outras pessoas. Seja na oração individual, seja na oração comunitária, Deus não tolera vã repetição, o uso de muitas e sofisticadas palavras e gestos exibicionistas. Os cristãos modernos acreditam que Deus ama shows cultuais, louvores coreográficos. Pensar assim é ver em Deus um Ser leviano como nós o somos! Jesus está se referindo a orações feitas a Deus, e não a orações feitas a anjos e a santos, nem a orações dos terreiros de candomblé, feitas a demônios. 
3.3. Oração feita ao Pai. Para os realmente evangélicos, com base em toda a Bíblia, oração é um oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxílio do Espírito Santo, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias. Porque Deus 
(1) Está no céu. Seu trono é o centro do universo, de onde ele governa a tudo e a todos, de forma absoluta e segura. “O céu é o lugar de seu trono” (Sl 11.4; cf. Ap 4 e 5). 
(2) Tem um nome santo. Seu santíssimo Nome deve ser reconhecido, respeitado, adorado, engrandecido, exaltado, glorificado por nosso modo de viver, com o risco de duras penas se o mesmo for desrespeitado ou profanado. 
(3) Tem um reino. E este é nosso, caso façamos, pela fé, parte da aliança divina conosco em Cristo. Ele é o Rei que governa este reino, soberanamente; nada escapa a seu governo. Ele não dá relatório de tudo quanto faz, pois ninguém existe igual a ele ou acima dele. 
(4) Tem uma vontade soberana. No momento, parece não ser assim; mas um dia essa vontade será revelada em toda sua plenitude. É bom que nós a conheçamos e experimentemos agora, para nossa felicidade, porque no dia do juízo final ela será feita e satisfeita, mesmo que seja para nossa desdita eterna. 
(5) Dá o pão diário. É o sustento básico da vida humana, que é dado ou sustado pelo Deus que a tudo governa, segundo os interesses de seu reino, embora nos constranja o fato de haver tanta miséria no mundo. Um dia entenderemos suficientemente para o glorificar melhor. 
(6) Perdoa as dívidas humanas. Nossas dívidas são mui amplas; elas atingem o próprio Criador e suas criaturas. Devemos a Deus, infinitamente, e a nossos semelhantes. Esta expressão revela não só sua soberania, mas também sua misericórdia. Ele não tem nenhuma obrigação de tolerar o homem apostatado. Em Cristo, ele quis perdoar, esquecer as ofensas daqueles que se refugiam em seu amor perdoador. 
(7) Socorre nas tentações. Isto pode ser esclarecido por Paulo: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além de vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13). 
(8) Livra do mal. Nunca vamos saber plenamente o quanto nossa vida seria pior se Deus não nos livrasse, não nos poupasse, quase sempre de forma imperceptível. Graças a sua infinita misericórdia para conosco (Lm 3.22, 23). 
Esta oração é o modelo para todas nossas orações feitas individualmente, bem como comunitariamente. Não podemos ir além de sua essência. 

4. Jejum (6.16-18). 
O jejum é um ato religioso muito difundido e praticado pelas religiões. Os judeus o observavam com austeridade, bem assim os muçulmanos; os católicos romanos têm seus jejuns; sabe-se que os adoradores de Satanás também jejuam a seu “príncipe” com o fim de dominar o mundo para ele. Os filhos de Deus jejuam, porém de forma correta, à luz do que Jesus preceituou. Negativamente, o jejum deve ser evitado, quando 
1. É feito com ostentação. Já vimos que tal atitude pertence ao homem em seu estado de alienação de Deus, em que o ego depravado tenta glorificar-se, e o consegue até certa medida. Quando assim sucede, não é Criador o glorificado, e sim a criatura. E aprendemos na Santa Escritura que ele não dá sua glória a ninguém (Is 42.8). 
2. É associado ao pecado. É em Isaías 58 (3-10) que somos instruídos quanto à forma incorreta e correta de jejuar diante de Deus. Jejum sem quebrantamento não tem sentido senão fisiológico. Jejum com o intuito de parecer que tudo está bem engana o ser humano, porém não a Deus que a tudo vê. Jejum para se negociar com Deus também termina em frustração. 
Positivamente, o jejum deve ser praticado, quando 
1. É oferecido a Deus. No caso de ofensa, ofendemos é a Deus mesmo, acima de tudo; no caso de necessidade, é ele mesmo que nos supre, como a fonte de todo bem. 
2. É secreto. É um ato praticado entre mim e Deus. Por isso devo ungir (molhar) a cabeça e lavar o rosto para que ninguém o perceba. 
3. É voluntário. Existe o jejum comunitário, convocado pela igreja, o qual deve ser atendido, o que é raro. Em regra, jejuar é uma decisão pessoal e voluntária. 
4. É sincero. Tem de partir da consciência iluminada pelo Espírito Santo. Ele está associado com alguma catástrofe pessoal ou comunitária. 
5. É integral. Um jejum parcial é estranho, pois deixa de ser um sacrifício pessoal oferecido a Deus. Para ser realmente um sacrifício agradável a Deus, ele tem de ser integral, ou, seja, de sol a sol, sem a ingestão de água ou de alimento sólido. 
6. É para comunhão mais íntima com Deus. O jejum não importa a ninguém, senão à pessoa que jejua e a Deus. É o momento em que nos afastamos completamente de tudo e de todos e nos pomos diante de Deus e aí ficamos em sintonia com ele. 
5. Galardão (6.4, 6, 18). 
Jesus ensina e afirma que tudo isso – a esmola, a oração e o jejum, que são exemplos de todo bem que fazemos ao semelhante ou de nossa própria devoção apresentada a Deus, em nome de Jesus Cristo – é recompensado. Se os ocultarmos para que Deus os veja, então nossa recompensa virá dele; se ostentarmos, ela virá dos homens. Que recompensa escolhemos: a de Deus, ou a dos homens? A de Deus é eterna e verdadeira; a dos homens é temporária e geralmente falsa. 
5.1. O galardão humano. Jesus afirma que quem ostenta o que faz já recebeu a recompensa. É curioso que ele não diz: receberá sua recompensa. Aparentemente, é verdade que o mundo recompensa seus “benfeitores”: elogios públicos, prêmio Nobel, medalhas, de vez em quando até mesmo algum bem material. Entretanto, o mundo faz isso movido pela visão externa desses “bens” realizados pelos premiados. Outros que estão fazendo bens maiores ficam ignorados, seja porque o mundo não os vê, ou porque não os quer ver, segundo suas conveniências. 
5.2. O galardão divino. Confiar no galardão divino é muito melhor, porque (a) Deus é imparcial. Ele não deixa de retribuir a alguém só porque não gosta da cor de sua pele, ou pelo aspecto de seu físico, ou pela distinção de sexo. (b) Deus é justo. Não deixa escapar ninguém como o mundo faz, nem recompensa alguém que porventura não deva ser premiado. Quem recompensaria alguém por um copo de água fria?! Contudo Deus o faz. (c) Deus é gracioso. Estritamente falando, ninguém merece coisa alguma da parte de Deus, pois nossas obras são imperfeitas, oferecidas a um Deus perfeito. Mas ele recompensa nossos atos e atitudes oferecidas a ele com um coração sincero. Ela começa aqui e se estende para além da eternidade. Aqui, temos suas bênçãos temporais; além, temos suas bênçãos eternas, permanentes e crescentes. (d) Sua recompensa é proporcional. A parábola dos talentos (Mt 25.14-30) nos transmite essa idéia. Todavia, ninguém será menos feliz por receber menos (“Bem está, servo bom e fiel ... entra no gozo de teu Senhor”), porque a bênção da presença de Cristo será a mesma para todos, e é esta que mais nos importa. 
Conclusão 
O que Jesus quer da parte daqueles a quem ele salva e abençoa é nada menos do que ele fez e exemplificou: ele teve compaixão dos necessitados; ele orou fervorosamente ao Pai e jejuou muitas vezes; além de tudo mais que ele fez e ensinou. Jesus nunca foi um homem de meras palavras; ele sempre foi um homem de fatos concretos. A religião de Jesus não se compõe de profissão dos lábios, mas de ação positiva. O amor de Deus não é abstrato, pois ele se concretiza em atos de misericórdia. 
Medite e responda
1. Por que Deus exige discrição em nossos atos devocionais? 
2. Com o quê você concorda: sem caridade não há salvação, ou sem salvação não há verdadeira caridade? 
3. Se Deus a tudo vê e tudo sabe, por que ele ainda quer que oremos? 
4. Qual o verdadeiro jejum que Deus espera de seus filhos? 
5. O que a idéia de galardão causa em nós?

Estudo 7 
O CRISTÃO E AS RIQUEZAS TERRENAS 
Mateus 6.19-24 
Plano semanal
1. Tenho alguém no céu (Sl 73.25) 
2. Pai celeste (Mt 6.9) 
3. Vontade divina (Mt 6.10) 
4. Verdade que liberta (Jo 8.32) 
5. O Filho libertador (Jo 8.36) 
6. Habitação da justiça (2Pe 3.13) 
7. Novo céu e nova terra (Ap 21.1) 
Objetivo do estudo
Ensinar que o filho de Deus, participante da Aliança da Graça, é fiel em tudo o que faz na terra, porém tem seu coração depositado no céu. 
Para memorização
“Ora, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8.17b). 
Para meditação: Salmo 73.23-28 
Para o início da aula: Mateus 6.19-24 
Introdução 
Temos aqui mais três seções, agora de outra natureza, as quais atingem três áreas da vida humana: coração, mente e vontade. Jesus quer atingir a pessoa integral, porquanto Deus não criou apenas o corpo, ou a alma; ele criou a pessoa. Tampouco Jesus salva apenas o corpo, ou a alma; ele salva a pessoa. O que está destinado à eternidade feliz não é só a alma, mas a pessoa integral. Daí a necessidade da ressurreição do corpo morto: para novamente reunir a alma com o corpo redivivo, para a vida feliz no novo universo, após o juízo final. Jesus, pois, quer a pessoa total, disciplinada e amadurecida para o futuro com ele. 
1. O coração (Mt 6.19-21). 
“... onde está teu tesouro, aí estará também teu coração” (Mt 6.21). Esta é a chave: coração e tesouro estão sempre juntos. Onde um estiver, aí estará também o outro. 
1.1. Delineando. Voltando ao termo coração, como já referido no segundo estudo deste curso, vamos aprofundar seu sentido bíblico a fim de penetrar a mensagem que Jesus deixou neste parágrafo para nos instruir.

Coração, em toda a Bíblia, geralmente significa o universo interior do ser humano (Ef 3.16, 17); o centro da vida espiritual; a sede das emoções, seja de alegria (Dt 28.47), de dor (Jr 4.19), de tranqüilidade (Pv 14.30) ou de excitação (Dt 19.6). É do coração que se origina o senso moral, a consciência, a lembrança, a afeição, o amor. Deus mira o mais íntimo do ser humano, seu coração, e o esquadrinha (1Cr 28.9; Sl 44.21; Jr 20.12; Ap 2.23). Por isso devemos guardar o coração (Pv 4.23). 
1.2. Confrontando. A Bíblia, usando várias figuras, diz que o coração do homem natural é empedernido (Zc 7.12; Mt 19.8; Ef 4.18); enfermo (Is 1.5); impenitente (Rm 2.5); insensato (Sl 53.1); insensível (Is 6.10); mau (Gn 6.5; 8.21; Pv 19.21; Ec 8.11; Jr 17.9; Mt 12.34; Lc 6.45). Daí lermos que o coração humano precisa converter-se a Deus (Sl 51.10, 17; Jl 2.12; Ez 11.19; 36.26) por meio da (Rm 10.10); ser limpo (Tg 5.8); ser novo (Dt 30.6; Jr 24.7; 31.33; 32.39; 2Co 3.3; Hb 8.10); ser sempre quebrantado (Sl 34.18); ser sincero (Ef 6.5; Hb 10.22); ser cheio de amor (Rm 5.5; 1Pe 1.22); ser habitação do Espírito (Gl 4.6; 1Co 3.16, 17); Deus deve ser buscado de todo o coração (Dt 4.29; 6.5; 11.13; Jr 29.13; Mt 22.37; At 8.37; Cl 3.23), para que ele resplandeça em nossos corações em toda sua plenitude (2Co 4.6). 
1.3. Concluindo. O coração humano necessita de um dominador: ou Deus o domina, ou então o pecado será seu senhor; ou o espírito se sobrepõe, ou será a matéria a fazê-lo; ou o coração estará no céu, ou estará totalmente na terra; amaremos os tesouros celestiais, ou nos apegaremos aos tesouros terrenos, e por eles lutaremos com todo nosso vigor; ou ajuntaremos tesouros no céu, ou os ajuntaremos tão-somente aqui na terra. 
(1) Quais são os tesouros terrenos? Todas as coisas pelas quais lutamos por ajuntar: casas, terrenos, objetos preciosos, veículos (se possível novos), dinheiro no banco (quanto mais, melhor), vestuário etc. Um coração cheio dessas coisas, dominado por elas, ou, melhor, dominado pelo desejo de as possuir (com freqüência nem as possuímos ainda), jamais estará satisfeito; não se saciará facilmente. Imaginamos que, se alcançarmos uma determinada meta, ficaremos satisfeitos. No entanto, não é esta a experiência dos que a alcançaram. 
(2) Quais são os tesouros celestiais? 
(a) Deus mesmo, acima de tudo. A Bíblia toda nos exorta a descansarmos em Deus e a depositarmos todo nosso coração nele. Temos de ter a experiência do salmista: 
“Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira minha alma. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42.1, 2). 
Das expressões mais ditosas para um coração renovado é aquela de posse: Deus meu (Sl 42.5, 11). É possível um tesouro maior do que possuir Deus (ou ser sua possessão)? Há uma recíproca gloriosa: aquele que possuir Deus é, acima de tudo mais, possuído por ele. Não é precisamente isso que cantamos? 
Minha possessão eterna, 
És meu maior amor; 
Bem maior que o bem da vida 
És meu Deus, meu Salvador (C.C. 286). 
(b) A vida celestial com tudo o que a envolve. O novo universo com toda a eternidade, toda a glória, toda a felicidade será do filho de Deus. Somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo de tudo isso! (Rm 8.17).
(c) Todo o bem que aqui praticarmos, em nome de Cristo, se reverterá em galardão para o filho de Deus. Tudo isso equivale a ajuntar tesouro no céu. O que queremos mais, mesmo que não possuamos nenhum tesouro aqui? Pois o tesouro terreno é deteriorável e extorquível, enquanto que o celestial é indestrutível e eterno. Nem ladrão rouba, nem traça corrói. 
2. A mente (Mt 6.22, 23). 
Concordamos com os intérpretes que afirmam que Jesus estava se referindo à mente humana quando falou dos olhos como a lâmpada do corpo (6.22, 23). Ainda que concordemos com a tese de que o coração é a sede dos pensamentos e de todo o íntimo humano, podemos tratar da mente numa seção específica, como geradora dos pensamentos, das idéias, da razão, do entendimento, da compreensão, da percepção. Daí o dito: “Os olhos são as janelas da alma.” De fato, a função dos olhos físicos não passa de veículo do mundo exterior para o mundo interior. Todavia, a Bíblia fala sobejamente dos olhos, em termos figurativos. 
2.1. Olhos fechados (Mt 13.15; At 28.27); olhos maus (Mt 20.15); olhos cheios de adultério (2Pe 2.14); cheios de concupiscência (1Jo 2.16; Pv 6.25; Ez 6.9; 2Pe 2.14); altivos (Sl 18.27; Pv 6.17). 
2.2. Precisam ser iluminados (Ed 9.8; Sl 19.8; Ef 1.18); desvendados (Sl 119.18); sábios (Rm 12.16). 
E, no tocante à mente: 
(1) A mente do homem natural é corrompida (2Co 11.3; 2Tm 3.8; Tt 1.15); não tem entendimento (Dt 32.28; Sl 32.9; Pv 18.2; 2Co 4.4.; Ef 4.18). 
(2) Precisa ser renovada (Rm 12.2); a lei de Deus precisa ser impressa na mente (Hb 8.10); o entendimento precisa ser iluminado (Lc 24.45); precisa ser enriquecido (Cl 1.9). 
Assim como uma pessoa tem um olho natural (um olho representando ambos os olhos, aqui para iluminar sua existência física e para mantê-la em contato com seu ambiente terreno), ela igualmente possui um olho espiritual, ou, seja, a mente, para iluminar sua vida interior, para guiá-la moral e espiritualmente e para mantê-la em sintonia com o Pai celestial. Mas, se a “luz” que está em tal pessoa escurece – por exemplo, em razão de seu anseio irrefreado por tesouros terrenos –, então quão profunda deve ser essa escuridão! – já que o próprio órgão de recepção de luz foi escurecido pelo pecado. Ao fracassar no que deveria ter sido seu propósito, ou, seja, a promoção da glória de Deus, essa pessoa perde tudo, inclusive sua vida eterna! 
3. A vontade (Mt 6.24). 
Concordamos, igualmente, com os intérpretes que afirmam que este versículo tem a ver com a vontade humana, e que esta se acha sediada no coração ou alma do homem. Aqui está uma vontade dividida entre servir ou não a dois senhores: Deus e Mamom (riquezas). A pessoa que pôs o coração em lugar errado (v. 21) e direcionou sua mente para um rumo errado (vv. 22, 23) também sofre de uma vontade desalinhada, uma vontade que não se harmoniza com a de Deus (v. 24). É oportuno lermos aqui Lucas 16.5, 9, 11. Vamos refletir sobre a vontade humana. Ela 
3.1. Está escravizada à corrupção como estão todas as faculdades do homem. Isaías afirma que não há no homem nada são (1.6). O homem todo está enfermo, primordialmente sua vontade, seu arbítrio. 
É estranho que grande parte da igreja cristã seja adepta do livre-arbítrio humano. Muitos, porque são ignorantes quanto ao termo, suas conotações e implicações; e, muitos, porque defendem um cristianismo deteriorado, pondo o homem no centro do universo, e não seu Criador. O que significa o termo “livre-arbítrio”? Régis Jolivet o define assim: “O livre-arbítrio não é uma faculdade distinta da vontade, mas um atributo da vontade. É o poder que possui de se determinar a si mesma e, por si mesma, a agir ou a não agir, sem ser a isto coagida por nenhuma força, nem exterior nem interior.” 
Segundo esta definição, e segundo a crença filosófica geral, a vontade do homem é soberana; ela é intocável; nem mesmo Deus pode dominá-la. Todavia, a vontade do homem pecador está escravizada ao mal, incapacitada de fazer o bem que agrada a Deus. No jardim, Adão e Eva tiveram sua vontade livre para conservarem ou perderem a liberdade. Seu livre-arbítrio não conseguiu fazê-los iguais a Deus. De repente, se viram escravos da morte, do medo, da culpa, do sofrimento, da perda do paraíso, da corrupção e jungidos a Satanás, sem poderem evitar ou fugir do pecado Sua vontade já não podia ter comunhão com o Criador. Percebeu-se, então, que o homem não podia mais não pecar, bem como não podia mais fazer o bem livremente. E continua assim. Quando ele faz algum bem, é para sua própria glorificação que o faz. Paulo foi fundo em sua visão da vontade humana escravizada: 
“Porque nem mesmo compreendo meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (Rm 7.14). 
Não basta querer; é preciso poder. De fato queremos, mas descobrimos que não podemos. Não basta meramente dizer: “Querer é poder!” Neste sentido, uma boa parábola para reflexão é a dos dois filhos, registrada em Mateus 21.28-32. Aparentemente, o que vemos aí, em ação, é o livre-arbítrio do homem; todavia, o que sobressai nesta parábola é precisamente o oposto disso. Um filho diz: “Eu vou, pai.” Contudo, não foi. O outro diz: “Não quero ir, pai.” Mas, arrependido, foi. Eis a vontade do homem em conflito. Se alguém insiste no livre-arbítrio do homem, diremos que ele tem livre-arbítrio, sim, mas para pecar, para cometer erro, para fazer o que não deseja fazer, pois isso lhe é natural; já nasce assim. A criança enfrenta desde cedo essa ingente luta. 
3.2. A vontade do homem precisa da bênção divina. Aproveitando o “gancho” da parábola, notemos que o segundo filho só fez a vontade do pai depois que se arrependeu. Sem arrependimento, sem conversão, sem a iluminação do Espírito Santo, sem uma nova vida com e em Cristo, sem a oração do salmista – “Ensina-me a fazer tua vontade, pois tu és meu Deus” (Sl 143.10) – o homem continua dizendo “sim”, e não fazendo; e continua dizendo “não”, e fazendo. 
Dobrar nossa vontade para fazer a de Deus carece de muita bênção do alto, e mesmo assim ainda choramos com freqüência como fez Pedro no Sinédrio (Mt 26.69-75). Nossa vontade é tão viciada, que queremos ter Deus como nosso Senhor, porém percebemos, estarrecidos, que estamos sendo comandados por Mamom. De fato é difícil saber quem é nosso Senhor: o Deus Altíssimo, ou Mamom. Jesus penetrou nossa pobre natureza quando pronunciou o versículo 24. O que ele quis revelar-nos é que há uma terrível guerra em nossa vontade. Nosso livre-arbítrio foi escravizado desde o jardim do Éden, quando nossos pais tinham a liberdade de continuar fazendo o bem e de não praticar o mal. Mas, ao perderem a capacidade de sua vontade, eles perderam também a liberdade de fazer o bem perfeito, ficando impossibilitados de não fazer o mal. Em outros termos, sua vontade teve um curto-circuito. Agora o homem não passa de um pobre escravo do pecado (Jo 8.34). Somente em Cristo é que o pecador readquire sua liberdade e sua vontade se coaduna com a de Deus (Jo 8.32, 36). 
Conclusão 
Nestes três parágrafos, Jesus envolve o homem em sua totalidade. Somente com o coração, a mente e a vontade abençoados com o novo nascimento e a habitação do Espírito Santo é que o homem pode usufruir das bem-aventuranças. Somente então, regenerado, ele pode dizer: “Eis aqui estou, para fazer, ó Deus, tua vontade” (Hb 10.7-9). Então descobrirá que seu tesouro de fato está no céu, e que seu Senhor é Jesus Cristo, e não Mamom. 
Medite e responda
1. Que relação existe entre o coração, a mente e a vontade do homem? 
2. À luz da realidade humana e do ensinamento bíblico, o que dizer do livre-arbítrio? 
3. Quais são nossos tesouros celestiais? 
4. O que fazer com nosso conflito entre Deus e Mamom? 

Estudo 8 
CURANDO A ANSIEDADE 
Mateus 6.25-34 
Plano semanal
1. Alma sossegada (Sl 116.7) 
2. Sossego de criança (Sl 131.2) 
3. Conversão e sossego (Is 30.17) 
4. Justiça e tranqüilidade (Is 32.17) 
5. Sono tranqüilo (Sl 4.8) 
6. O ósculo da justiça e da paz (Sl 85.10) 
7. Paz perfeita (Is 26.3) 
Objetivo do estudo
Demonstrar que a vida, que é um dom divino, está acima das coisas temporais, e que ela deve buscar o engrandecimento do reino de Deus e da justiça. 
Para memorização
“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10a) 
Para meditação: Salmo 131 
Para o início da aula: Mateus 6.25-34 
Introdução 
Jesus começa o presente parágrafo com uma conjunção gramatical – “por isso”, “portanto” –, a qual revela que esta parte é conseqüência dos três parágrafos anteriores, os quais falam do homem em sua totalidade – coração, mente e vontade. O conteúdo do presente parágrafo (6.25-34) descreve o interior humano em harmonia com Deus, ou seu oposto – um íntimo desajustado, confuso, cuja confiança está posta em Mamom e não no Criador. O filho de Deus precisa corrigir as distorções de seu mundo interior e direcionar sua confiança plena para o Deus que não pode mentir, e que tem provado sobejamente que seus atos providentes são sábios e infalíveis. Basta fazer uma avaliação. 
1. A vida é dom de Deus
1.1. O Autor da vida. O enfoque de Jesus agora é a própria vida. Ele falou do coração, da mente, da vontade; agora, ele engloba tudo e o canaliza para a vida, a existência humana no universo de Deus. Esta existência tem sua origem em Deus como Arquiteto e Edificador. Sua vontade soberana ordenou: “Façamos o homem a nossa imagem ...” (Gn 1.26). “... e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida ...” (Gn 2.7). “Ó Deus, Autor e Consumador de toda a vida ...” (Nm 16.22). Ossos secos se juntam, se revestem de carne e voltam à existência ativa mediante o sopro do Espírito (Ez 37.7-10). Do rei Belsazar, diz Daniel: “Mas a Deus, em cuja mão está tua vida e todos teus caminhos, a ele não glorificaste” (Dn 5.23). A vida de todos os seres humanos é uma dádiva divina (At 17.25). Nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28). Ninguém vem à existência fortuitamente (Sl 139.16). Por isso Deus pode referir-se a um rei pagão como sendo seu ungido (Is 45.1). E que a vida e os caminhos de um rei abominável estavam nas mãos de Deus (Dn 5.23). Deus trouxe faraó à existência para ele fazer a vontade divina (Rm 917). Deus é o Senhor absoluto de toda a vida universal e conduz tudo para um clímax antecipadamente planejado. 
1.2. A eternidade da vida. Não é apenas a vida animal do homem que é dom de Deus, mas também, e sobretudo, a vida eterna. Cristo é o Autor da vida (At 3.15). Ele é a própria vida (Jo 14.6; 11.25). Ele veio para que suas ovelhas recebessem vida com abundância (Jo 10.10). Quem tem o Filho tem a vida eterna (1Jo 5.12). O ímpio, espiritualmente morto, recebe a vida de Cristo (Ef 2.1), pela fé (Ef 2.8). E, agora, o viver do crente é Cristo mesmo (Gl 2.19, 20; Fp 1.21). Nossa vida está escondida com Deus em Cristo (Cl 3.1-4). 
Como ficou delineado no início deste curso, Jesus aqui não está se referindo a todas as criaturas humanas do mundo. Ele se dirige especificamente àqueles que nascem do alto, se tornam filhos de Deus pela adoção em Cristo e são participantes da Aliança da Graça. As advertências e promessas são dirigidas aos mesmos bem-aventurados, que ainda são passíveis de fraquezas e fracassos. 
2. Confronto de valores
Jesus toma a vida, que é dom de Deus e se fez eterna em Cristo, e a põe diante de coisas perecíveis e temporais: alimento e vestuário. Consumimos a vida, que é dom eterno de Deus, por coisas consumíveis. E Jesus realça a grandeza da ação providente de Deus em alimentar pássaros e vestir flores, cuja existência é tão elementar e passageira. E chama nossa atenção para o fato de que a preocupação de Deus está posta em nós, criados a sua própria imagem e semelhança e redimidos por seu Filho. Quão maior é nosso valor do que o de aves e de flores! O salmista faz a seguinte observação: 
“Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem sua descendência a mendigar o pão” (Sl 37.25). 
É verdade que Jesus contou a história de um justo que mendigava e que morreu na miséria e totalmente sozinho (Lc 16.19-31); é verdade que é possível encontrarmos um crente genuíno vivendo em dolorosa mendicância; é verdade que, às vezes, aparentemente, os crentes em Cristo são desamparados e sofrem de modo variado e cruel. Em toda regra, porém, há exceção. Todavia, a experiência do salmista continua válida: Deus sempre protege o justo e sua descendência. Duvidar de Deus é ter uma fé bem pequena (se é que tal fé existe!). 
Os cristãos não podem correr parelha com os não-cristãos em sua incredulidade. Que comeremos, que beberemos, com que nos vestiremos são indagações de pessoas que não conhecem o Deus da providência! Os cristãos estão numa esfera muito superior de experiência e conhecimento de Deus. A pergunta de Paulo nos estremece com ditosa emoção: 
“Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32). 
Isto deveria fechar nossa boca murmuradora! Queremos prova maior? Seria um imenso e desditoso pecado! 
3. Prioridades
“Em primeiro lugar ...” Em parte alguma dos Evangelhos Jesus insinua, mesmo de leve, que o cristão, com base em sua vida futura, deva cultivar a ociosidade. Muito menos aqui, quando ele se vale de ilustrações referentes a aves que não trabalham (se bem que trabalham, e muito!) e de flores que nada produzem (se bem que produzem, e muito!). O intuito de Jesus não é ensinar a irresponsabilidade. Muito ao contrário! 
“Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). 
E como trabalhava! Entretanto, Jesus sempre deu o exemplo de cuidar das prioridades. Seu reino e sua justiça eram sua preocupação primordial. Seria errôneo afirmar que “reino” se trata da vida devocional com Deus, e que “justiça” se trata mais de nossa luta em prol do semelhante? Mesmo a pregação do “evangelho do reino”, para a salvação eterna do homem, é de caráter um tanto devocional. Enquanto que a justiça vem a lume visando ao bem-estar do injusto. Se este sentido está correto, esta luta por justiça visa não só ao povo de Deus, senão que busca o bem-estar de todos, indistintamente. Esta luta é caracterizada pelo verbo buscar! É uma busca incansável; é uma batalha sem armistício, a qual só cessará com a morte de cada um de nós ou com o regresso de Jesus. Ignorar esta prioridade é inverter os valores da vida e os interesses de Jesus Cristo, Senhor da igreja; é privar-se de uma grande bênção e privilégio. Aliás, não existe bênção e privilégio sem responsabilidade, sem resposta positiva ao imperativo divino. 
“E todas estas coisas vos serão acrescentadas.” Todas estas coisas: comida, bebida, roupa etc. As coisas que compõem nossa existência essencial, as quais têm sua importância e lugar na vida, as quais o próprio Cristo utilizou enquanto viveu com os homens. Ele comeu, bebeu, se vestiu; contudo, não perdeu o sono nem a cabeça por essas coisas. Se o Senhor não abençoar, é inútil trabalhar, edificar, vigiar, levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão penosamente granjeado. “A seus amados ele o dá enquanto dormem” (Sl 127.1, 2). Esta experiência não é só do salmista; é uma realidade de todo cristão consciente. Enquanto lutamos pelas prioridades – seu reino e sua justiça –, o Senhor nos abençoa em tudo o mais. 
O profeta Habacuque foi ainda mais longe. Ele declarou que todo seu sustento poderia falhar, mas não deixaria de alegrar-se no Senhor, de exultar no Deus de sua salvação e de fazer de Deus sua fortaleza (Hc 3.17-19). Isto é prioridade. O homem vive de pão, sim, mas a prioridade maior é a palavra que sai dos lábios de Deus para seu alimento eterno (Mt 4.4). A promessa divina é infalível: “serão acrescentadas.” Pode ser acrescentado até mesmo o que não pedimos e nem mesmo pensamos. Aliás, se fôssemos receber só o que pedimos, então seríamos miseráveis demais, porquanto nem mesmo sabemos pedir! 
4. Dura realidade
“Não vos inquieteis com o dia de amanhã.” Não tentemos viver o presente e o futuro de uma só vez. Este pertence a Deus. Adiantaria alguma coisa? Claro que não, e nós o sabemos muito bem! Extraiamos daqui algumas lições práticas: 
4.1. A ansiedade é uma realidade constante do homem moderno. Para este, tudo depende dele mesmo. Daí, ele trabalha, luta, rouba, mata, destrói e não se dá descanso dia e noite. Ele vive hoje, amanhã, depois de amanhã, ajunta, amontoa e não pára, porque o que ajuntou é sempre pouco demais! Aquele que não consegue ajuntar, de forma alguma tem sossego também. A humanidade moderna é enferma da cabeça aos pés; aliás, sobretudo em sua alma! Os consultórios psiquiátricos, as casas de repouso, os hospícios estão todos superlotados. Além daqueles que são desequilibrados, e no entanto permanecem entre os supostos sadios. Todos estão desorientados, ou para conservar o que têm ou para adquirir o que não têm. Os pobres, os desempregados, os enfermos, os aposentados que o digam! Estes estão indagando: “O que comeremos? Com que nos vestiremos? Onde moraremos?” Contudo, 
4.2. A ansiedade não resolve nenhum problema. Aliás, ao contrário disso, uma alma que cultiva a ansiedade, a inquietação, está fadada a contrair doenças psicossomáticas, e a contaminar os de sua convivência. A ansiedade não possui nenhuma chave mágica para solucionar os problemas da vida; ela não consegue antecipar nada; por meio dela o “pão” de amanhã não entra em nossa casa; por meio dela o dinheiro dos compromissos não chega a nossa conta bancária; por meio dela o ente amado não corre para nós; por meio dela o inesperado não deixa de se concretizar, nem tampouco o esperado vem! A ansiedade não impede catástrofe alguma e nem faz vir a bonança! Quem pode, por meio da ansiedade, evitar a calvície, as rugas, a debilitação do corpo, a chegada da morte? Ao contrário, a ansiedade apressa tudo isso! 
4.3. Sua cura. O melhor antídoto contra a ansiedade é manter a alma serena e esperar confiantemente no Senhor, quando nada mais podemos fazer, pondo-nos diante do trono da graça (Jo 14.1). A espera confiante (Sl 40.1). A oração é uma das terapêuticas mais eficazes para a ansiedade do coração (Fp 4.6). Até a medicina está se inteirando disso. Orar é lançar em Deus nossas ansiedades e esperar serenamente (1Pe 5.7). Ora, se temos a certeza de que Deus cuida de nós, a ansiedade nos deixará em paz. Há também necessidade de se cultivar a paciência. Esta é a virtude divina que faz o cristão suportar os males com equilíbrio sereno; faz o cristão encarar tudo com tranqüilidade: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). Podemos encarar tudo com serenidade e paciência, sabendo que Deus tem o mundo em suas mãos. Precisamos aprender a esperar com paciência (Rm 8.25). E essa esperança nasce da paciência e da consolação das Escrituras (Rm 15.4). Estas nos ensinam a suportar os sofrimentos com paciência (2Co 1.6). 
O Remédio eficaz e integral se acha no comovente convite de Jesus em Mateus 11.28-30: 
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados [ansiosos, inquietos, agitados, aflitos, assustados, com medo], e eu vos aliviarei [vos curarei completamente]. Tomai sobre vós meu jugo [meu compromisso, minha responsabilidade], e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso [a cura] para vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve [na companhia de Jesus toda provação é suportável!].” 
Três verbos-chave: vir, tomar, aprender. Este é o caminho para uma vida saudável e útil. Vir a Jesus, tomar seu jugo, aprender dele, nosso exemplo máximo. Simples, funcional e eficaz. 
Conclusão 
A vida é duplamente um dom de Deus: pela criação e pela redenção em Cristo. Portanto, esta vida é eterna, infindável. Diante das coisas terrenas e perecíveis, nossa vida se realça de forma magnífica. Ela é preciosíssima para Deus. Tão preciosa que por ela Cristo veio e se ofereceu em sacrifício salvífico. Que a ansiedade seja a doença do mundo incrédulo, e não a nossa. Em Cristo somos mais que vencedores! 
Medite e responda
1. Qual é a origem da ansiedade? 
2. Se a vida é dom de Deus, qual deveria ser a atitude do cristão? 
3. O que significa buscar o reino de Deus? 
4. Qual é a conseqüência da ansiedade? 


Estudo 9 
RELAÇÕES INTER-PESSOAIS 
Mateus 7.1-6 
Plano semanal
1. Difamação e injúria (Sl 15.3) 
2. Pena do escritor (Sl 41.1) 
3. Julgamento justo (Jo 7.24) 
4. Língua branda (Pv 25.15) 
5. Língua que louva (Rm 14.11) 
6. Língua sem amor (1Co 13.1) 
7. Língua no dia do juízo (Mt 12.36) 
Objetivo do estudo
Ensinar a prudência no uso da língua. 
Para memorização
“Alguém há cuja tagarelice é como pontas de espada, mas a língua dos sábios é medicina” (Pv 12.18). 
Para meditação: Jó 9.10 
Para o início da aula: Mateus 7.1-6 

Introdução 
Agora Jesus nos põe diretamente em relação inter-pessoal com nosso semelhante, nosso igual, nosso próximo, no local de trabalho, na escola, nas rodas coloquiais, na igreja ou nas reuniões da sociedade humana. Aqui Jesus nos fala da convivência. Ele nos faz refletir sobre uma questão muito séria da vida em sociedade – a avaliação que fazemos constantemente uns dos outros. É muito gratificante e instrutivo penetrar as intenções de nosso Senhor. Então, vejamos: 
1. Tendência natural
Analisar, avaliar, conceituar é uma atitude natural dos seres racionais. Aliás, este é um atributo da natureza humana, e faz o homem distinto dos demais seres. Ele pensa, arrazoa, formula conceitos, espera resposta; ele quer conhecer e entender o porquê das coisas. Isto é bom, é louvável, é recomendável. Não obstante, quando procura conhecer seu semelhante, de forma depreciativa, não pelo prisma de si mesmo, e com intuitos escusos, então ele se encaixa na avaliação de Jesus. Analisemos essa atitude humana. 
1.1. Subjetivamente. Em nossa vivência com nossos semelhantes, quer pelos laços familiares, fraternos ou profissionais, é inevitável, e mesmo necessário, formar nossos conceitos pessoais dos mesmos. Quanto mais e melhor conhecermos os de nossa convivência, melhor também enfrentamos as lutas que advêm dessa convivência. Cada pessoa sábia fará isso. E toda pessoa sábia ouve mais do que fala. Enquanto ouve, ela observa, avalia, confronta, tira conclusões. Só podemos ajudar quando compreendemos bem a pessoa necessitada que nos busca. Jesus procedia assim: ouvia atentamente, analisava e emitia sua opinião, que era sempre sábia, certa e boa (Jo 2.25). O cristão é com freqüência procurado para opinar, aconselhar, decidir questões difíceis. Como fará isso bem sem conhecer e compreender as pessoas envolvidas? Sem aquilatar os prós e os contras? Uma mente atenta, astuciosa, vale muito mais! 
1.2. Objetivamente. Mas a observação de Jesus aponta para outro rumo. Ele se refere a uma língua ferina, instrumento de um coração maldoso, egoísta e injusto; um coração premeditado ou precipitado. Desde o Antigo Testamento, Deus nos adverte contra a língua maldosa e para nós mesmos não cultivarmos tal hábito. A língua má é comparada ao açoite (Jó 5.21); à navalha (Sl 52.2); é mentirosa (Pv 6.17); é flecha mortífera (Jr 9.8); é pequena, mas faz grandes estragos (Tg 3.5); é fogo que consome (Tg 3.6); é indomável (Tg 3.8); é fonte amarga (Tg 3.10-12). Ela precisa ser refreada (Sl 34.13). A língua do cristão precisa ser medicina (Pv 12.18); ser erudita (Is 50.4). Quanto a nosso semelhante, precisamos ser tardios no falar (Tg 1.19); quanto a Deus, precisamos falar com cânticos (Ef 5.19) e de acordo com seus oráculos (1Pe 4.11). 
1.3. Um lamentável descuido. Sábia é a pessoa que consegue se ver no espelho da realidade. A pessoa que se ausculta, se analisa, gasta tempo em se observar e se conhecer, não vai facilmente enquadrar-se na advertência de Jesus aqui registrada. Há uma severa advertência que se transformou em provérbio: “Homem, conheça-se a si mesmo.” Voltaremos a este assunto no item sobre Argueiro e Trave
2. Critério infalível
Atentemos bem para o núcleo do ensinamento de nosso Senhor. 
2.1. O que Jesus não quis dizer. Para não cairmos nos extremos enganosos, procuremos, com equilíbrio, divisar bem o que Jesus disse e o que ele não disse. (a) Ele não disse que jamais devamos formar juízo das pessoas, mesmo em nossa conceituação introspectiva. Já vimos que isso é mesmo necessário e que revela sabedoria de nossa parte. (b) Ele não disse que jamais devamos ser juízes. Se assim fosse, o cristão jamais poderia ser jurado, advogado, promotor de justiça, juiz ou oficial de sua igreja. Ele jamais poderia ser nem mesmo um líder, pois, para isso, é preciso avaliar e até mesmo emitir conceito sobre os liderados. (c) Jesus não quis dizer que na igreja não pode haver disciplina, porquanto, para que esta exista, é preciso haver formulação de juízo, de opinião, e até mesmo é preciso condenar. O fato é que a Bíblia nos ensina que devemos fazer tudo o que acabamos de mencionar. 
2.2. Critério e medida. E o que Jesus realmente quis ensinar? Ele quis ensinar que (a) é errôneo concentrarmos nossa atenção na pequena mancha no olho do irmão, e ignorar a trave que há em nosso próprio olho. Ele está condenando o espírito de censura descaridosa, arrogante; o juízo áspero; a auto-justificativa em detrimento de outro, sem se levar em conta a misericórdia, o amor para com o irmão, a tolerância. (b) Jesus condena a hipercrítica, a conceituação falsa (Ex 23.1), desnecessária (Pv 11.13), maldosa (Pv 18.8). (c) Jesus condena a atitude precipitada em se condenar uma pessoa. Que o estudante da Bíblia leia e medite na história de Davi em condenar o rico que comeu a ovelha do pobre, quando o ímpio era ele mesmo (2Sm 12.1-7). 
O conteúdo de Mateus 7.2 é sábio, severo e realista. Jesus mostra que o tratamento que dou a outros (positivo ou negativo) será o tratamento que também vou receber. Serei medido com a mesma medida com que medi ou meço (ou ainda mais drástica). A pessoa que se justifica a seus próprios olhos, que tem por costume descobrir falhas nos outros, deve lembrar que ela mesma pode esperar ser também condenada, não só pelos homens, mas sobretudo por Deus (Gl 6.14, 15). Que grande verdade! Se somos sempre maldosos em nossa avaliação dos outros, vão nos tratar assim também; se somos compreensivos, ponderados, bondosos em nossa avaliação dos outros, também nos tratarão assim, quando formos avaliados. Os misericordiosos alcançarão misericórdia (5.7); os pacificadores serão chamados filhos de Deus (5.9). Seremos tratados da mesma forma que tratamos os demais. Pelos frutos se conhece uma árvore (Mt 7.16-20). 
2.3. Argueiro e trave (vv. 3-5). Argueiro é apenas uma pequenina mancha, um pequenino cisco, uma minúscula lasca de madeira. Trave é uma grande e pesada peça de madeira usada em construções. Jesus usa estas figuras para nos ensinar: 
(1) Somente uma pessoa realmente perfeita tem o direito de criticar outras pessoas. Primeiro, não existe tal pessoa; segundo, se existisse, seu amor seria também perfeito, e tal pessoa iria usar de bondade, e não de maldade, para com outras pessoas. 
(2) Para ter o direito de criticar outra pessoa, eu preciso ter tido a mesmíssima experiência pela qual ela passou. E não existem duas pessoas no mundo que experimentam o mesmíssimo revés. Há um provérbio que diz: “Nenhuma pessoa tem o direito de achar falha noutra, enquanto não andar um quilômetro com os sapatos desta.” 
(3) Não tenho qualquer direito de criticar o outro, a menos que, pelo menos, eu tente fazer melhor que aquele a quem critico. Se não, o melhor a fazer é manter a boca fechada. 
(4) A pessoa que estimula é muito mais valiosa do que a pessoa que desestimula. É melhor mostrar o caminho do que desencaminhar. Um bom conselho orienta; uma crítica maldosa irrita e desorienta. 
(5) Devemos aprender a avaliar uma pessoa em seu todo. Ela pode cometer um erro, mas devemos confrontar seu erro com tudo de bom que ela porventura tenha feito. Por que somente o erro prevaleceria? O que deve prevalecer numa pessoa são suas virtudes e seus acertos; os erros devem ser esquecidos. 
2.4. Solidariedade. Jesus está querendo nos ensinar, em outros termos, que existe em nós, querendo ou não, um espírito de solidariedade, ou, seja: (a) quanto a nossa natureza pecaminosa. Aquele que não peca, seja o primeiro a atirar a pedra. (b) Quanto ao espírito humanitário. Como Jesus nos compreende (desejamos tanto isso!), devemos também agir compreensivelmente para com nosso semelhante. (c) Quanto ao coração de Deus. Quanto amor está ali guardado! Quanto amor Deus precisa ter para nos suportar e ainda nos ter como seus filhos! Quanto amor devemos também ter para com nosso semelhante! Este é o critério supremo. 
3. Contradição? (v. 6). 
Aqui, cães não se referem a cãezinhos de estimação, e sim a cães vagabundos, grandes, selvagens e feios, que vivem em toda parte, perambulando pelos lixos à procura de restos lançados nas ruas. São considerados imundos e nojentos (Pv 26.11; cf. 2Pe 2.22; Ap 22.15); ameaçam (Sl 22.16, 20); uivam e rosnam (Sl 59.6); são gananciosos e atrevidos (Is 56.11). 
Em relação a porcos, o Antigo Testamento os menciona entre os animais imundos (Lv 11.7; Dt 14.8). Em Isaías 65.4 e 66.3, 17, comer a carne de suínos constitui uma abominação. Para o filho pródigo, ser mandado para os campos a alimentar porcos teria aumentado horrivelmente sua miséria (Lc 15.15, 16). Mencionam-se juntos cães e porcos, não somente aqui em Mateus 7.6, mas também, e essencialmente, em 2 Pedro 2.22. 
Santo e pérolas são usados juntos como sinônimos, em referência àquilo que está em estreita conexão com Deus, que para ele foi separado. Combinando tudo isso, podemos concluir que aqui Jesus está afirmando que tudo quanto está em especial relação com Deus deveria ser tratado com reverência, e não ser confiado àqueles que, em razão de sua natureza completamente ímpia, viciosa e desprezível, podem ser comparados a cães e porcos (Fp 3.2). Os discípulos de Cristo não devem continuar levando a mensagem do evangelho aos que dela escarnecem dia e noite. Nossa paciência não exclui limite. Devemos ter paciência para com aqueles que relutam, porém nunca blasfemam. Se insistirmos com os cães e os porcos, um dia eles se voltarão contra nós e tentarão nos devorar. 
No entanto, como saberemos quem é cão e porco? Não teremos que julgar? Claro que sim. Então Jesus estaria caindo em contradição? Claro que não. No tribunal dos judeus, de Herodes e de Pilatos, Jesus não lançou suas pérolas aos cães e porcos. Temos o dever de fazer cuidadosa e sábia discriminação de pessoas. Isso nos ensina a considerar com amor e reverência as coisas santas, as pérolas de Deus. 
Conclusão 
O desfecho de tudo, neste estudo, é que o cristão deve revestir-se de muita sabedoria em seu trato com as pessoas de seu relacionamento. Santidade e sabedoria. Ao proceder assim, não só será pessoalmente respeitado por todos, como será também respeitada a religião de Jesus, a qual professamos. Até os blasfemadores um dia fecharão suas bocas. 
Medite e responda
1. Que espécie de julgamento Jesus condena? 
2. À luz deste texto, o cristão deve ou não ser jurado? 
3. O que é um argueiro? 
4. O que é preferível, ter no olho um argueiro ou uma trave? 
5. Por que gostamos tanto de ver e tirar os argueiros dos olhos alheios? 
6. Tire sua própria conclusão do versículo 6. 


Estudo 10 
ORAÇÃO E ÉTICA JUNTAS 
Mateus 7.7-12 
Plano semanal
1. Busca ansiosa (Sl 63.1-3) 
2. Alegria no Senhor (Sl 64.10) 
3. Oração e graça (Sl 66.20) 
4. Riqueza e graça (Sl 69.13) 
5. Oração na velhice (Sl 71.19) 
6. Deus se esquece? (Sl 77.7-9) 
7. Avivamento e restauração (Sl 80.14-19) 
Objetivo do estudo
Ensinar que a perseverança em buscar a Deus é o segredo de nosso triunfo. 
Para memorização
“Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas” (Mt 7.12). 
Para meditação: Salmo 80 
Para o início da aula: Mateus 7.7-12 
Introdução 
Não há nada isolado no Sermão do Monte. Todas as idéias formam um todo harmonioso e belo. Portanto, o pensamento de 7.1-6 não é interrompido pelo de 7.7-12, como se esta porção não tivesse qualquer relação com aquela. Aliás, ao contrário disso, 7.7-12 é conseqüência de 7.1-6. Esta última porção é tão desafiante, que Jesus aponta para o único remédio eficaz para capacitar o cristão a praticar 7.1-6 – a oração. 
Esta porção não é uma mera repetição de 6.5-15. Aqui Jesus está receitando: “Quando orardes ... Portanto, vós orareis assim” (6.5-9). Em 7.7-12 Jesus está exortando o cristão a formar o hábito de orar em dependência ao Pai bondoso que não fecha seus ouvidos nem seus olhos ao clamor do filho aflito e carente, mesmo que esse filho esteja errado. 
1. Degraus da vitória (vv. 7, 8). 

1.1. Imperativos. Pedi, buscai, batei. Há uma escala crescente de intensidade. São formas imperativas dos verbos pedir, buscar e bater. 
Pedir 
Este verbo traz embutida a idéia de humildade e consciência de tal necessidade. É usado na súplica que um inferior dirige a um superior. O fariseu da parábola não pede nada (Lc 18.10-13). Ele apresenta ao Senhor suas virtudes pessoais. O publicano pede, ou, melhor, ele suplica: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador.” Pedir traz ainda a idéia de fé num Deus pessoal com quem o homem pode e deve manter comunhão. Ao apresentarmos um pedido, ficamos à espera de uma resposta. Esta atitude significa fé num Deus que pode responder, que responde e responderá, fé num Deus que é Pai. O cristão que ora assim jamais dirá: “Ó Deus, se realmente tu existes, salva minha alma, se é que eu tenha uma.” 
Buscar 
Buscar é pedir-agindo. Uma petição fervorosa não é suficiente. Aquele que ora fervorosamente deve agir dinamicamente em seu empenho para obter a satisfação de suas necessidades. Orar em favor de um profundo conhecimento da Bíblia sem lê-la, examiná-la e confrontá-la seria uma mera zombaria (Jo 5.39; At 19.11). Fazer parte de uma comunidade cristã (Hb 10.25), participar do culto de adoração sem se esforçar por viver em harmonia com a vontade de Deus seria outra forma de zombaria (Mt 7.21, 24, 25; Jo 7.17). Buscar-agir está em sintonia com buscar-fazer a vontade de Deus. 
Bater 
Bater é pedir-agir-perseverando. O adorador continua batendo até que a porta se abra. Ele continua batendo à porta do palácio celestial até que o Rei, que ao mesmo tempo é Pai, abra a porta e o supra de tudo quanto necessita (Lc 11.5.8). Mas a idéia de perseverança provavelmente já esteja embutida nos três imperativos, assim: continuai pedindo, continuai buscando, continuai batendo. De fato, à luz da Escritura, esta deve ser a atitude do cristão (Lc 18.1, 7; Rm 12.12; Ef 5.20; 6.18; Cl 4.2; 1Ts 5.17). 
1.2. Promessa. Quando nos propomos a suplicar ao Rei o que entendemos ser-nos importante, levantamo-nos, buscamos os portões do palácio celestial e nos pomos a bater, na certeza de que eles se abrirão. De fato, eles se abrem de par em par. Esta é a promessa; e é isto mesmo que sucede: quem pede, recebe; quem busca, encontra; a quem bate, a porta se abre. Contudo, a promessa está limitada por uma condição: só recebe quem pede humildemente; só encontra quem prossegue na busca perseverante; a porta se abre somente àquele que prossegue batendo com fé de que ela um dia se abrirá; aliás, a porta se abre somente a quem confia naquele que está do outro lado da porta. Todo aquele que crê não ficará decepcionado. Nisto não haverá exceção. A promessa é realidade para quem crê e age e persevera em obedecer. O Mar Vermelho não se abriu enquanto o povo não avançou e não pisou na água. Quase sempre Jesus exigia alguma atitude daqueles que queriam seus benefícios. Estenda a mão; vá lavar no tanque; assentem-se todos; olhe para mim. Quem se assenta, cruza os braços, se põe a cochilar, à espera de alguma bênção, quando pode agir e não age, vai acordar mais pobre do que antes. É verdade que o que determina é a bênção divina; sem ela, não adianta agir; mas é também verdade que o Deus que abençoa quer que aquele que é abençoado aja em correspondência à ação do Espírito Santo. O crente já não é um cadáver, espiritualmente falando, mas um ser vivificado e em sintonia consciente com o Deus que vivifica os mortos. 

2. Realçando a bondade de Deus (vv. 9-11). 
Nos versículos 9 e 10, Jesus faz duas perguntas que podem ser enfeixadas numa só: que pai enganaria seu filho, dando-lhe algo ruim, ante seu pedido, por algo bom? Uma pedra em vez de pão, uma cobra em vez de peixe? É possível? Sim, é possível. No campo do mal, tudo nos é possível fazer! Deus, por boca de Isaías, suscita a mesma hipótese, agora usando a figura de uma mãe, o que faz a questão ainda mais vívida: 
“Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho de seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.15). 
Sim, infelizmente é possível, e tem acontecido: um pai engana o filho, mata o filho, deserda o filho, odeia o filho. Uma mãe toma o filho recém-nascido, põe-no em um cesto, ou numa caixa, ou só em trapos, e o deposita na porta de uma residência. Outra toma seus dois filhos, pequenos, únicos, indefesos, carentes, e os mantém dentro do carro fechado, os faz descer às águas de uma lagoa, portando os filhinhos ainda vivos, e isso porque o amante o exigiu, caso ela quisesse optar por ele. Há por aí muita história escabrosa de pais e mães desumanos, para não mencionar os filhos que chegam a matar toda a família, e depois são, por seus advogados, qualificados de mentalmente insanos para que sejam justificados e isentados de qualquer condenação. Sim, tudo de ruim é possível a uma humanidade morta em delitos e pecados. Mas também é verdade o que o versículo 11 preconiza: 
“Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem.” 
Em contrapartida, quantos homens e mulheres, que destruiriam meio mundo para conseguir o que querem, sem a menor piedade, cobrem seus filhos de afeto e dádivas e até morreriam ante um pedido do filho. Alguns pais criam impérios, pensando no futuro dos filhos. A história humana está saturada de exemplos de pais assim: são inclementes com os outros; com os filhos, porém, são extremamente afetuosos. 
Assim Jesus confronta, bem como Deus em Isaías 49.15, a bondade dos pais maus com a bondade do Pai celeste, amantíssimo e solícito, ante o clamor de seus filhos terrenos, ainda que esses filhos não sejam tão bons quanto deviam. Todavia, é preciso distinguir a bondade dos homens da bondade de Deus. 
2.1. Fato comprovado. O pai bondoso não engana o filho, dando-lhe o que este pede ou de que necessita. Ele não distingue bem entre o que o filho pede e o que realmente é para seu bem. Simplesmente dá. Assim, a bondade do pai vem a ser a ruína do filho. Portanto, o bom pai não é aquele que dá ao filho tudo quanto este lhe pede, e sim tudo quanto o filho realmente precisa. Para isso, ele vai contrariar o filho, muitas e muitas vezes. 
2.2. Contraste. É justamente aqui que permanece a distinção entre os pais terrenos e humanos e Deus como nosso Pai celestial. (a) Este quer que seus filhos orem, apresentando diante dele todos seus desejos. Ele se alegra em ver que seus filhos são confiantes em pôr diante do trono da graça seus pedidos segundo sua divina vontade. (b) Ele não promete responder positivamente a todas as orações de seus filhos. É aqui que está a segurança do cristão. Este sabe que pode pedir o que quiser, porém sabe igualmente que Deus não atende a todas suas orações, conforme ele quer, mesmo feitas com muita fé. Aliás, esta muita fé repousa na vontade absoluta de Deus. Não há oração dirigida a Deus que ele não ouça. Ele responde às orações dos santos como Pai que tudo vê e a tudo analisa; como Pai que sabe o que é melhor para seus filhos, em todos os aspectos e tempos. Ele é quem sabe pesar os prós e os contras. Ele é quem sabe dizer não para nosso bem, ainda que isso nos pareça mau no momento. Nossa confiança, pois, é depositada no trono ocupado pelo Pai celestial e por seu Filho, nosso Sumo Sacerdote e Advogado, sempre solícitos pelo filho querido que se chega a eles em busca de apoio e segurança. E, como Deus é bom para conosco! Aliás, como Deus é graciosamente bom para com toda a humanidade! 
3. A lei universal (v. 12). 
3.1. Sua importância. Jesus apresenta aqui uma regra infalível para todas nossas relações sociais de cunho jurídico. É como se ele parasse nesse ponto, olhasse para trás e para frente (para o que ainda iria dizer) e dissesse: “Para o bom viver, esta é a regra infalível.” A ética cristã seria simples com a aplicação desta regra. Portanto, que cada cristão a decore, a devore, a mentalize, cada dia, e a ponha em prática em seu viver diário, em todas suas atividades. 
3.2. Sua forma negativa. Os judeus conheciam bem esta regra em sua forma negativa: “Não faça aos outros o que não quer que lhe façam.” Confúcio ensinou a mesma forma: “O que não quer que lhe façam, também não faça a outros.” 
Não é tão difícil pôr em prática esta regra em sua forma negativa: basta omitir-se de retribuir o mal com o mal. Alguém pode evitar fazer o mal a outrem, mas também pode deixar de fazer-lhe o bem. Há muita gente que procura não revidar mal com mal; contudo, se seu desafeto precisar do bem, ele é capaz de lho negar. Deixar de retribuir com o mal, o mal recebido, porém negando o bem, não deixa de ser um grande mal. 
3.3. Sua forma positiva. Jesus, maravilhosamente, como nenhum outro jamais fez, ensinou algo vital e difícil de se praticar em virtude de nossa natureza pecaminosa. Quando ele afirma que devemos fazer aos outros o mesmo que gostaríamos que eles nos fizessem, entram em nossa vida um novo princípio e uma nova atitude em relação a nosso semelhante. Uma coisa é dizer: “Não devo prejudicar o próximo.” Esta pode ser uma obrigação de cunho legal. Coisa bem distinta é dizer: “Devo envidar todo esforço em ajudar meu semelhante, ser-lhe bondoso, da mesma forma como eu gostaria que ele me ajudasse e fosse bondoso para comigo.” Esta atitude positiva e dinâmica só é possível pelo prisma do amor que constrói. Não só se abstém de fazer o mal, mas também faz o bem. Da não-ação negativa passa à ação positiva. A omissão de fazer o mal pode ser por comodismo ou covardia; a ação de fazer o bem envolve disposição e decisão que podem custar muito sacrifício. A religião de Jesus é algo positivo. Ele expõe o que o cristão deve fazer, e não o que ele não deve. Não basta omitir a prática do mal; é preciso fazer o que é certo e bom. 
Conclusão 
O Cristianismo, como Jesus o elaborou, é algo espantosamente grandioso. Este parágrafo do Sermão do Monte é simples e prático. Não obstante, por detrás das palavras, aparentemente claras, há um universo de sabedoria, extasiante encanto e contundente desafio. Jesus conclui: “Porque esta é a lei e os profetas.” Toda a lei e todos os profetas (as profecias dos profetas) estão compreendidos em Jesus. Tudo foi derramado nele e dele emana o sentido de tudo. Esta é uma idéia espantosamente imensa. 
Medite e responda
1. O que é oração? 
2. Faça um confronto da “bondade” humana com a bondade divina. 
3. Que diferença existe na forma negativa da “lei universal” de tantos mestres com a forma positiva de Jesus? 
4. Como seria o mundo com a presença de um Cristianismo que praticasse a “lei universal”? 
Estudo 11 
PORTAS E CAMINHOS 
Mateus 7.13, 14 
Plano semanal
1. Jesus é a porta (Jo 10.9) 
2. Jesus é o caminho (Jo 14.6) 
3. Encruzilhada (Dt 30.15, 19, 20) 
4. Escolha decisiva (Js 24.15) 
5. Convite vital (Jo 7.37, 38) 
6. Experiência vital (6.66-69) 
7. Entrando pela porta estreita (Lc 19.1-10) 
Objetivo do estudo
Levar o aluno a sentir-se numa encruzilhada a fim de fazer uma decisão definida e determinante: caminhar com Jesus. 
Para memorização
“Quem acha sua vida, a perderá; quem, todavia, perde a vida por minha causa, a achará” (Mt 10.39). 
Para meditação: Mateus 19.16-22 
Para o início da aula: Mateus 7.13, 14 
Introdução 
Jesus volta a usar figuras com o fim de ilustrar verdades perenes, como fez durante todo seu ministério. Ele já mostrou que viver em seu reino é agradável, porém difícil, e isso em decorrência de nossa natureza contrária a tudo o que vem de Deus. As bem-aventuranças incluem perseguição. Agora Jesus mostra quão difícil é entrar em seu reino. “O apelo de Cristo é apresentado de tal forma, que não aparenta nenhum atrativo para o mundo insensato e egoísta, senão para aqueles cujos corações têm sido atraídos e cujas consciências têm sido tocadas por sua apresentação das bem-aventuranças, pelas quais podem esperar, e da justiça, que deles se espera” (J.M. Gibson). 
1. Rumo a seguir
1.1. A ordem. Jesus põe porta e caminho, e não caminho e porta. Se a ordem fosse esta, teria um sentido escatológico, ou, seja: a pessoa enfrentaria o caminho da vida e entraria pela porta eterna. Mas a ordem de Jesus é porta e caminho, em sentido soteriológico, ou, seja: a pessoa tem que entrar pela porta da salvação e caminhar pelo caminho da vida cristã. 
1.2. Encruzilhada. Ao lermos estes dois versículos, vem a nossa mente a idéia de encruzilhada. A mulher samaritana seguia seu próprio caminho até deparar-se com Jesus junto ao poço de Jacó – esta era sua encruzilhada; Zaqueu, igualmente, seguia seu próprio caminho até chegar àquela árvore, nas proximidades de Jericó – aí estava sua encruzilhada; Saulo de Tarso seguiu todos os meandros de seu malfadado caminho, até aquele ponto da estrada de Damasco – aí estava sua encruzilhada. Todos tomaram o mesmo rumo – a porta estreita e o caminho apertado. O jovem rico (ou pobre?!), porém, ao deparar-se com a mesma encruzilhada, tomou outro rumo (Mc 10.17-22), seu próprio rumo. Todos têm de parar na mesma encruzilhada – mas o rumo a tomar, daí em diante, será diverso. 
1.3. Percepção e decisão. Outra idéia que neste texto vem a lume é o fato de que, qualquer um que chegue na encruzilhada, precisa perceber e decidir o rumo a tomar. Nesta encruzilhada, ele ouve a voz de comando: “Entre pela porta estreita.” Não há como voltar. Seguir em frente, estará continuando seu velho caminho. A porta estreita é Cristo (Jo 10.9). O caminho, também (Jo 14.6). A porta é estreita; o caminho, apertado (Mt 16.24). Ambos estão aí diante dele, a sua direita ou a sua esquerda. Cabe-lhe, porém, perceber e decidir. 
Há duas linhas na percepção e decisão: a horizontal, ou humana; a vertical, ou divina. Humanamente falando, o imperativo é dirigido a nós: “entrem” – e isso por toda a Bíblia. Nós é que percebemos; nós é que decidimos que caminho tomar; nós é que nos convertemos; nós é que nos esforçamos; nós é que perseveramos. Deus não faz isso por nós. Todavia, ao avançarmos pela porta estreita e pelo caminho apertado, percebemos com o Efraim quebrantado e oramos com ele: “Converte-me, e serei convertido, porque tu és o Senhor, meu Deus” (Jr 31.18). As linhas se misturam, porém a vertical prevalece – a soberania de Deus em ação. A vertical é que nos põe no caminho. Temos responsabilidade ao longo da jornada? É evidente que ninguém é mais responsável do que o cristão. Mas é a linha vertical (que vem do céu) que sempre prevaleceu para nosso bem. A linha vertical (Deus, ou o Espírito de Deus) não nos deixa entregues a nós mesmos (o que seria catastrófico!). “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127.1). Mas é preciso trabalhar; é preciso vigiar. É o imperativo divino. As conversões que não prevalecem se deram, ou se dão, somente no sentido horizontal; a verdadeira conversão, que é entrar pela porta estreita, se dá no sentido vertical – ela vem do Espírito de Deus (Tg 1.17). Depois disso, enquanto trabalhamos e vigiamos, descobrimos que o Senhor é quem edifica e guarda! 
1.4. Dificuldades. O Cristianismo é a religião da franqueza e da transparência. Jesus nunca enganou a ninguém sobre as implicações negativas de ser cristão. Ao contrário, ele sempre apontou para o fato de que ser cristão é glorioso, sim, mas que, ao mesmo tempo, é espinhoso. “No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33; cf. 2Tm 3.12). Em Mateus 7.13, 14, ele diz abertamente que porta e caminho fáceis não provêm dele, e sim do mundo. Sua porta e seu caminho são estreitos, apertados, penosos. Com freqüência, ouvimos a proclamação de um cristianismo que resolve todos os problemas de seus adeptos. Aliás, na entrada de seus templos lemos: “Aqui você resolve todo e qualquer problema; você entra com problemas e sai sem eles.” De certo modo, porém, o Cristianismo é a religião que traz problemas a seus fiéis. De certo modo, o cristão é quem mais sofre neste mundo. Abraçar Cristo é abraçar sua cruz; e abraçar sua cruz é abraçar o sofrimento – desfruto de abundância é só no porvir – para todo o sempre! 
2. Os transeuntes
Os que escolhem a porta larga e o caminho espaçoso são chamados “muitos”; os que entram pela porta estreita e transitam pelo caminho apertado são chamados “poucos”. Isto está em harmonia com Mateus 22.14: “Muitos são chamados [vocação geral], poucos, escolhidos [vocação específica].” Atentemos também para a idéia de “remanescentes” (Rm 8.27; 11.5). No entanto, os eleitos são descritos como sendo uma multidão que ninguém pode contar (Ap 7.9). 
Não obstante, não se deve concluir, erroneamente, que as grandes multidões que passaram pela porta estreita e transitam pela avenida ampla em que cabe o mundo inteiro são livres e felizes. Não se deve concluir, em contrapartida, que aqueles que passam pela porta estreita e transitam com dificuldade pelo caminho apertado vivem em miséria e são infelizes, merecendo a compaixão do mundo. O problema é que não vemos como Deus vê; Deus vê o todo. Por um instante, o salmista teve inveja dos ímpios (Sl 73.3). De forma ignorante, ele passou a fazer uma análise deles (Sl 73.4-16). Mas, ao entrar no santuário, na presença de Deus, ele teve uma nova visão dos justos e dos ímpios (Sl 73.17-28). Somente na presença de Deus a realidade fica clara! 
A verdade é que a “liberdade” e a “felicidade” da maioria ímpia é de natureza fugaz, fortuita e superficial. Eles são escravos dos vícios e das coisas (Jo 8.34). Eles estão acorrentados como o prisioneiro que tem uma braçadeira de ferro presa a sua perna, a qual se acha ligada a uma forte corrente, que por sua vez se acha fundida à parede de uma masmorra. Todo pecado que ele comete comprime ainda mais a corrente, até que esta o esmaga completamente. O fato é que o ímpio não tem paz interior (Is 48.22), e muito menos é feliz. 
E os peregrinos do caminho apertado? “Grande paz têm os que amam tua lei” (Sl 119.165; cf. Is 26.3; 43.2). É verdade que entrar pela porta estreita e transitar pelo caminho apertado significa auto-renúncia, luta, dificuldade, dor, aspereza, lágrimas, abatimento, perda. Isto sucede por vivermos ainda neste “vale de lágrimas” e possuirmos a natureza pecaminosa que ainda não foi de todo vencida. Para o “novo homem” em Cristo, com sua natureza regenerada, abençoada com a semente divina, há alegria indizível e cheia de glória (1Pe 1.8; cf. Rm 7.22; Fp 2.17; 3.1; 4.4). Os “poucos” que passam pela porta estreita são “afligidos, porém não esmagados; perplexos, porém não desesperados” (2Co 4.8, 9); “entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10). Além dos tesouros que já possuem desde agora, eles sabem que riquezas muito maiores os aguardam (2Co 4.17; cf. Rm 8.18). Vale a pena entrar pela porta estreita, agora, e transitar pelo caminho apertado. É preferível possuir a glória eterna a possuir as glórias terrenas, passageiras, enganosas, e na eternidade perder tudo. As glórias eternas começam dentro de nós, com a presença do Espírito de Cristo, mesmo que externamente sejamos muitos Lázaros. 
3. Os destinos
3.1. Em termos negativos. Especificamente falando, os caminheiros do caminho largo estão indo rumo à destruição. Note bem: não a um estado de aniquilação, em que a existência é apagada, em que o indivíduo deixa de existir, o que é ensinado por muitos que se dizem cristãos. Esta destruição ensinada pela Escritura não é de caráter material, ou, seja, não é extinção, mas de caráter moral e espiritual, ou, seja, sofrimento eterno, perdição eterna, existência longe da presença amorosa e perdoadora de Deus (Dn 12.2; Mt 3.12; 18.8; 25.41, 46; Mc 9.43; Lc 3.17; 2Ts 1.9; Jd 6, 7; ap 14.9-11; 19.3; 20.10). Os profetas, os apóstolos, e sobretudo Jesus, não criam e nem ensinaram a extinção dos perdidos. Jesus morreu por uma razão muito maior e mais séria do que para livrar pessoas da extinção eterna. O que ele enfrentou faz mais sentido se tivermos em mente algo muito mais terrível: para livrar pessoas de um destino catastrófico. Se o indivíduo sabe que vai dormir um sono inconsciente, sua atitude será uma; se ele sabe que vai enfrentar um pesadelo, consciente e sem poder dele escapar, sua atitude será outra. Neste sentido, o rico da parábola foi destruído, contudo permaneceu consciente (Lc 16.19-31). O clamor dos profetas, dos apóstolos e de Jesus não foi para livrar pessoas da extinção eterna, o que não teria muito sentido; ele morreu, sim, para que essas mesmas pessoas pudessem escapar de um destino terribilíssimo, de dor e agonia, reais e perenes. 
3.2. Em termos positivos. A advertência de Jesus, “Entrem pela porta estreita”, “caminhem pelo caminho apertado” – imperativos que denotam urgência –, convida o pecador a escolher e a tomar uma direção certa, que conduz a um mundo feliz e eterno. O caminho da cruz leva ao lar eterno. Isto equivale a uma subordinação da vontade escravizada, pecaminosa e viciada ao Espírito de Cristo, à vontade soberana de Deus, que “conduz à vida” perene em seu sentido pleno e escatológico, a saber: (a) comunhão com Deus em Cristo, enquanto o espírito e o corpo estão separados, e depois no novo universo; (b) e também todas as bênçãos resultantes dessa comunhão. Que o estudante da Bíblia examine as seguintes passagens: Salmo 16.11; 17.15; 23.6; 73.23-36; João 14.2, 3; 17.3, 24; 2 Coríntios 3.17, 18; 4.6; Filipenses 4.7, 9; 1 Pedro 1.4, 8, 9; Apocalipse 7.15-17; 15.2-4; 20.4, 6; 21.1-7. 
Conclusão 
Todo o Sermão do Monte foi dirigido àquele que foi eleito desde antes da fundação do mundo (Ef 1.3, 4); predestinado para a adoção de filho (v. 5); para o louvor da glória de sua graça (v. 6); para a redenção no sangue de Cristo e a remissão de pecados (. 7); foi feito herança (v. 11); predestinado segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade (v. 11); para o louvor de sua glória (v. 12); nós, que de antemão esperamos em Cristo (v. 12); aquele que foi selado com o Santo Espírito da promessa (v. 13), para poder entrar pela porta estreita e caminhar pelo caminho apertado (Mt 7.13, 14); que tem o Espírito Santo como o penhor de sua herança até o resgate de sua propriedade, em louvor de sua glória (Ef 1.14). Este é aquele que é também participante da nova aliança. 
Medite e responda
1. Por que Jesus só ordena a que entremos pela porta estreita e que caminhemos pelo caminho apertado, e não na outra direção? 
2. Que significa a expressão “que conduz para a perdição”? 
3. E a expressão “que conduz para a vida”? 
Estudo 12 
OS FALSOS PROFETAS 
Mateus 7.15-23 
Plano semanal
1. A fé dos santos (Jd 3) 
2. Condenação antecipada (Jd 4) 
3. Destruição dos incrédulos (Jd 5) 
4. Condenação dos anjos (Jd 6) 
5. Falsa profecia (Ap 2.20-23) 
6. Marca da besta (Ap 13.11-18) 
7. Santos selados (Ap 7.1-17) 
Objetivo do estudo
Ensinar que o crente deve precaver-se e conhecer os falsos profetas e manter-se isento de contaminação no meio da presente geração. 
Para memorização
“Porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar meu depósito até aquele dia” (2Tm 1.12). 
Para meditação: 2 Timóteo 3.1-9 
Para o início da aula: Mateus 7.15-23 
Introdução 
Outro grande obstáculo para o cristão, no reino de Deus, é a questão da aparência. Se entrar pela porta estreita e transitar pelo caminho apertado constituem um forte obstáculo, quando estamos acostumados a uma vida fácil, enfrentar dia a dia o que é verdadeiro, só na aparência, cheira-nos a armadilha. De fato, o cristão vive a enfrentar as ciladas do maligno. Já que ele não pode habitar o cristão, visto ser este habitação do Espírito de Cristo, então ele exercita sua inteligência em engendrar meios de fazer o cristão tropeçar. Ele tem feito isso ao longo de toda a história da redenção, desde Adão, e o fará até o último cristão, quando Cristo regressar a este mundo. Terrível armadilha são os falsos carismáticos na igreja de Deus! Talvez nem mesmo nos dias dos apóstolos o problema foi tão sério como neste final e começo de novo milênio. O presente texto do Sermão do Monte merece uma atenção muito especial por parte do cristão que deseja viver vida cristã precavida. 
1. Discernindo os espíritos (v. 15). 
O inimigo declarado não requer esforço, de nossa parte, para que seja identificado. Já o inimigo velado, disfarçado, camuflado, um de nós, quem sabe um bom amigo, parecido conosco, ou, melhor, superior a nós (um profeta!), em quem confiávamos muito, esse, sim, requer de nós um grande esforço, caso queiramos identificá-lo com precisão (1Jo 4.1), principalmente em se tratando de profeta
1.1. Biblicamente, o que era um profeta? (a) Era alguém chamado e comissionado por Deus para uma obra específica; (b) era chamado vidente, ou, seja, aquele que interpretava sonhos, visões, e predizia acontecimentos futuros (1Sm 9.9; 2Sm 24.11; Is 30.10; Mq 3.7); (c) aquele que anunciava ou proclamava uma mensagem; (d) um porta-voz de Deus, com uma mensagem de advertência ou de julgamento, e muitas vezes de consolação e edificação; (e) enfim, era aquele que tinham uma palavra diretamente de Deus ao homem, e que tinha que expressá-la, mesmo que fosse contra sua vontade, como no caso de Jonas. Embutida na mensagem do profeta estava a idéia de salvação dirigida sempre aos receptores da mensagem. Era a oportunidade dada por Deus como convite ao arrependimento, sendo este a condição única para a reversão da catástrofe anunciada. O profeta sempre dizia: “assim diz o Senhor”, porque, de fato, o que ele expressava vinha diretamente do Senhor. Esta era uma das características da veracidade de sua mensagem. O cumprimento exato de sua profecia era infalível. Esta era a marca registrada da autenticidade do profeta e de sua profecia. 
2.2. O que era um falso profeta? (a) Não era enviado nem autorizado por Deus (Jr 23.21); ele mesmo se fazia profeta e se autorizava. (b) Anunciava sua própria palavra (Dt 18.20; Is 9.15; Jr 47; 14.13; Ez 13.3). (c) Anunciava paz e esperança no tempo de calamidade (era adepto da teologia da prosperidade!) (Jr 23.16). (d) Deleitava-se em fazer de seus sonhos profecias de Deus (Jr 23.25, 28, 32). (e) Suas profecias eram inspiradas por espíritos mentirosos (1Rs 22.23). Afastava as pessoas da fé em Jesus (At 13.4-12). (f) Geralmente, sua vida não era reta diante de Deus e dos homens (Jr 23.13, 14). (g) Deus era contra o falso profeta (Jr 23.31). (h) O castigo divino era contra ele e sua casa (Jr 23.34-40). 
Suscitemos a seguinte indagação: o falso profeta tinha e tem consciência do que é e do que faz? Ele sabe que é um profeta falso? (a) É possível que alguns homens e mulheres, na igreja, se passem por profetas de Deus consciente e premeditadamente. São pessoas inescrupulosas, e fazem tudo, inclusive envolvendo Deus mesmo, para alcançar seus objetivos egoísticos e escusos. (b) Todavia, à luz de 1 Reis 22 e Mateus 7.22, tudo leva a crer que, em geral, os falsos profetas são dominados por espíritos mentirosos, que os iludem para que creiam que suas profecias de fato vêm de Deus. Um espírito mentiroso se acha associado com o pecado em suas diversas formas (1Sm 18.10; 1Rs 22.24). Saul estava dominado pela inveja e violência. Zedequias estava dominado pela violência e desrespeito, e os profetas dos dias de Jeremias estavam contaminados por toda espécie de corrupção (Jr 23.13, 14). Jesus declara que os falsos profetas serão tratados segundo suas iniqüidades (Mt 7.23). Significa que tais profetas são enganados por espíritos maus, que se apossam deles em virtude de seus pecados inconfessos. Acreditam que são de fato profetas de Deus. Seu estado é tão grave que Deus lhes envia a operação do erro (1Rs 22.23; 2Ts 2.11). Tudo indica que, de tanto se envolver no pecado, o falso profeta é endurecido por Deus mesmo e de tal modo cegado que chega a ter certeza de que é realmente servo de Deus, e que quem não crê nele é incrédulo e está contra a Deus. 
2. Critério seguro (vv. 16-21). 
Como entender e descobrir a identidade real de um lobo com roupas de ovelhas? Às vezes o disfarce é tão bem feito! (a) Aparência de santidade; (b) palavra autoritativa (poderosa!); (c) algumas predições chegam a cumprir-se (aparentemente); (d) temos receio de julgar com base em Mateus 7.1-6. Jesus, porém, nos fornece pista segura para discernir o joio no meio do trigo. 
O grande problema a enfrentar é que, quase sempre, o perigo que o falso acarreta está justamente em sua aparência de autenticidade. Do contrário, não constituiria perigo algum! Todos os falsos afirmam que estão de posse da plena verdade! Nunca chegou a minha casa alguém proclamando que sua mensagem é pura mentira! E a maioria desses falsos arautos está mentindo; está falseando a verdade de Deus. E uma mentira que é quase verdade é mais danosa do que uma mentira completa. O cristão de conhecimento raso não tem condição de detectar a falsidade no meio da verdade. Quantos cristãos têm se bandeado para os arraiais que adulteram a verdade, sem o saberem, e ainda passam a condenar sua antiga igreja que ensina a plena verdade! Continuam sem perceber que passaram a abraçar a falsidade do pai da mentira! Então, como discernir o falso do autêntico? 
2.1. Podemos conhecê-los através de seus frutos. Jesus lança mão da figura de árvores e frutos. Ele faz a seguinte pergunta: “Colhem-se ... uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” “À primeira vista, a pergunta de Jesus parece um disparate. Contudo, havia na Palestina uma planta espinhosa que produzia um fruto escuro, redondo e pequeno, muito semelhante a pequenas uvas. Semelhantemente, havia um tipo de abrolho ou cardo cujo fruto, ao menos a certa distância, podia ser confundido com figo” (W. Barclay). 
O que Jesus extrai das figuras vai além de uma mera questão de identidade uva-espinheiro, figo-abrolho. Mesmo que não distingamos um profeta falso de um verdadeiro, a questão permanece: até que ponto é possível alimentar-se do fruto de espinheiro e abrolho? Ou, seja: Até que ponto nosso espírito suportará nutrir-se de falsa mensagem e da ilegítima palavra de Deus? Em dado momento, nosso espírito, em inanição, vai clamar pela real Palavra de Deus. O falso profeta pode ser eloqüente (em geral, de fato o é!), pode arrebatar nosso coração e nos nutrir por algum tempo, porém não por toda nossa vida. Deglutir alimento doce ilude nossa fome por algum tempo. Chegará, contudo, o momento em que nosso organismo reclamará o alimento sólido à base de sal e nutrientes fortes. Falsas profecias e belas palavras humanas nos acalentam e enganam nossos sentidos, mas não por toda a vida. “Que tem a palha com o trigo? – diz o Senhor” (Jr 23.28). O profeta legítimo, hoje, não é aquele que faz predição, e sim aquele que tem a incumbência de fazer fiel exposição e aplicação da Palavra de Deus para a nutrição das almas do povo de Deus. O profeta genuíno é aquele que se faz detentor da verdade bíblica e a expõe a pessoas carentes de edificação. As predições necessárias já estão registradas na santa Bíblia. A necessidade hoje é de genuínos expositores da santa Escritura. E é oportuno lembrar que predição e adivinhação são duas coisas bem distintas. A primeira vem de Deus; a segunda, do diabo! 
2.2. O tempo cura queijo. Este é um dos sábios provérbios do homem do campo. Ele esconde um belo ensinamento. A dona-de-casa sabe muito bem quão importante é o queijo bem curado para uma boa culinária. No entanto, não se consegue um queijo curado da noite para o dia. Requer tempo e paciência. Depois de produzido, passa-se certo tempo de incubação antes de estar no ponto. Às vezes, dependendo das intempéries, o queijo se deteriora nesse período de incubação, não podendo ser utilizado como “queijo curado”. O que o ruralista quer dizer com o provérbio é que devemos ter paciência e perspicácia quando queremos que algo resulte numa decisão sábia. Não adiante correr! “A pressa é inimiga da perfeição!” 
Ora, Jesus está dizendo que observemos bem aqueles que nos ensinam em nome do Senhor. Não é fácil; pode levar tempo. Em geral, eles têm um bom aspecto físico; sua palavra é “poderosa”; suas orações são “ungidas”; falam com muita autoridade; seus rostos chegam a brilhar; aparentam santidade; seu passa-tempo é condenar usos e costumes naqueles que pensam deles de forma diferenciada; citam a Bíblia com freqüência e de forma profusa; gostam de falar do inferno (certamente, para outros!); sua palavra contém forte sabor de juízo condenatório. As igrejas atuais estão cheias deles. As pessoas ingênuas os “adoram”. Vão longe para ouvi-los. O cristão atento se põe a examiná-los com paciência. 
Jesus nos adverte: não basta dizer: Senhor, Senhor! É preciso fazer a vontade do Pai celeste. E o que significa fazer a vontade do Pai? E aqui vai um teste para se conhecer um cristão autêntico. (a) Pureza pessoal. Honestidade, retidão, respeito, seriedade no trato com o dinheiro, pontualidade nos compromissos, palavra firme, moderada e veraz que granjeia credibilidade. (b) Amor pelo semelhante. É no dia-a-dia que se evidencia quem somos nós. Até onde percebemos, o único dom carismático que Dorcas possuía era o profundo interesse que nutria pelo semelhante necessitado. E é isso só que fica de um cristão autêntico, e esta será a base de seu julgamento final (Mt 25.31-46). 
3. Terrível equívoco (v. 22). 
Jesus está dizendo que, no dia do juízo final, haverá forte alegação com base nos dons carismáticos: profecia, exorcismo e milagres – “em teu nome”! É chocante! Jesus está indo de encontro às aspirações mais sublimes dos cristãos – os dons carismáticos. Eles não servem como referencial de uma vida cristã autêntica. Por quê? Porque podem ser falseados e usados para fins pessoais. E é isso que tem ocorrido todos os dias em nossa volta. Quantos profetas perdidos para sempre! Quantos exorcistas habitando com os demônios! Quantos operadores de milagres sem a ditosa vida eterna! 
Jesus nos está exortando a olharmos em outra direção. É pelos frutos, não pelos dons espirituais que o cristão é conhecido. Estes estão presentes na igreja temporariamente. Não fazem parte da vida cristã intrínseca. São dados pelo Espírito para uso temporário. No dia do juízo final, o supremo Juiz não perguntará: Que dons você exerceu? e, sim, que frutos você produziu? Que os filhos de Deus, cidadãos do reino celestial, participantes da nova aliança, não se iludam com as aparências religiosas! É preciso muito mais! Em seu sermão escatológico, ele reitera a advertência: “Vede que ninguém vos engane” (Mt 24.24). A questão é tão séria que ele diz: “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24). Ainda bem que Cristo mesmo faz isso impossível – os eleitos têm seus nomes escritos no livro da vida (Lc 10.20; Fp 4.3; Ap 3.5) e levam em suas frontes o selo do Cordeiro (Ap 7.3)! Foram comprados da terra! Os cristãos não podem descuidar-se nestes tempos modernos. Tudo passa, menos o amor! (1Co 13.8). 
4. Juízo inexorável (v. 23). 
Jesus usa duas expressões terríveis: 
4.1. Nunca vos conheci. Palavra dura. O que foi feito do meigo Nazareno? Aqui fala o Juiz de toda a terra. Naturalmente, Jesus não está a exibir sua ignorância. Aqui, “conhecer” equivale a “pertencer”. Não sei quem vocês são. Seus nomes não se acham escritos nas páginas do livro da vida (Ap 13.8; 17.8; 20.15). Vocês nunca me pertenceram. Nunca fizeram parte do rol de minhas ovelhas (Jo 10.15). Ao contrário de vocês, minhas ovelhas eu as conheço bem (2Tm 2.19). Quão terrível é ouvir alguém dizer: “Não conheço você; não sei quem você é; você não faz parte de meus convidados e amigos.” 
4.2. Apartai-vos de mim. Em 25.41, Jesus acrescenta “... malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” Maldito é alguém que não desfruta das bênçãos divinas, de seu favor, de sua graça, de sua aceitação, de sua proteção, de sua luz, de sua amizade e comunhão. Não tem a simpatia de Deus, sua compaixão, seu amor perdoador. É o oposto de bendito: abençoado! 
Esta doutrina é tão chocante para o homem moderno, que até mesmo os “cristãos” têm procurado dar-lhe retoques, com o intuito de livrar Deus de um vexame diante dos sábios da terra. Deus não pode amaldiçoar; não pode destinar suas criaturas, seus “filhos”, a uma existência de sofrimento eterno. Por mais que nosso conceito moderno de amor nos constranja ante uma doutrina tão severa, que promana de um Ser tão amante como Jesus, se quisermos ser cristãos, então teremos que curvar-nos ante sua realidade. Nossa confusão reside no fato de conceituarmos erroneamente o amor de Deus. A quem ele mais ama? A si próprio, ou ao homem? Muitos não vacilam em responder que é ao homem que ele mais ama. No entanto, Deus tudo faz por amor de seu Nome (Ex 20.7; Is 48.9, 11). Ele não ama a ninguém acima de si próprio. Ele não pode continuar amando a quem o rejeita, o despreza, o profana. Quem poderá entender a bondade e a severidade de Deus? (Rm 11.22). São dois lados da mesma moeda! O mesmo Jesus que veio salvar e abençoar, um dia dirá: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo de seus anjos” (Mt 25.41). 
O fato é que Deus não tolera a iniqüidade humana (ou desumana?). Principalmente iniqüidade associada com a religião, ou, seja, aparência de piedade (Is 1.13). Jesus nunca condenou tão severamente a alguém como fez com os escribas e fariseus, justamente por causa de sua falsa piedade, quando, na realidade, em seu coração, eram perversos, desapiedados. Coisa terrível é o coração perverso, desumano, com veste de piedade. É algo repugnante ver pessoas que exibem os dons carismáticos com o fim de manter oculta uma vida perversa. Longe de nós condenar os dons carismáticos! O que nos repugna é seu uso e abuso! E hoje é assim, mais que nunca. 
Conclusão 
O cristão genuíno detecta os obstáculos do caminho com muito discernimento. Hoje se fala tanto nos dons espirituais. Entretanto, há um sério equívoco quanto aos que são mais importantes. Paulo fala em “discernimento de espíritos”, e que ele vem antes de “falar em outras línguas”. Mas, como este dá mais ibope que aquele, os “cristãos” estão afirmando que é impossível ser cristão genuíno sem o “dom de línguas”, mesmo que a Santa Escritura jamais nos ensine tal coisa. Vamos pedir a Deus que nos abençoe com muito discernimento de espíritos, a fim de não sermos enganados ao longo da jornada. Não é fácil, mas é possível. 
Medite e responda
1. O que fazer quando os frutos de um falso profeta parecem bons? 
2. Alguns falsos profetas passam por verdadeiros até o dia do juízo final? 
3. Como combinar a bondade de Deus com sua severidade? 
4. Há quem diga que o inferno não existe; outros dizem que é ele temporário. E você? 
5. Como seria o céu se o ímpio fosse para lá sem regeneração espiritual? 
Estudo 13 
O ÚNICO FUNDAMENTO 
Mateus 7.24-29 
Plano semanal
1. O primogênito (Cl 1.15) 
2. O agente da criação (Cl 1.16) 
3. Nele tudo subsiste (Cl 1.17) 
4. Toda a plenitude (Cl 1.19) 
5. ele tem a primazia (Cl 1.18) 
6. O mistério revelado (Cl 1.24) 
7. Esperança da glória (Cl 1.27) 
Objetivo do estudo
Ensinar que Cristo é o único fundamento da vida universal. 
Para memorização
“Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). 
Para meditação: Hebreus 1.1-14 
Para o início da aula: Mateus 7.24-29 

Introdução 
Para encerrar o Sermão do Monte, Jesus chama a atenção de seus ouvintes para uma parábola. Ele está dizendo aos ouvintes e leitores que tudo o que ele falou, tudo o que ele fez e tudo que ele é constituem a base sólida da vida daquele que se propõe segui-lo à risca. Todo aquele que constrói fora dele sofrerá as conseqüências naturais de seu ato. Este é o desafio de Jesus, bem ilustrado pela parábola dos dois construtores. Aqui aprendemos que 
1. Todos nós construímos
Ao dividir os ouvintes em dois grupos, Jesus está lançando ou declarando um princípio simples e veraz: todo ser humano vive construindo, querendo ou não, admitindo ou não. Todos somos construtores, com ou sem habilidade. Estamos construindo em silêncio e falando; inertes e agindo; de forma benéfica ou nociva. Mesmo o pior dos homens está construindo. Todas as classes e idades estão construindo: os pobres e os ricos; os letrados e os analfabetos; os religiosos e os não-religiosos; os filósofos e os ignorantes; os cientistas e os economistas; os governantes e os governados; pequenos e grandes; homens e mulheres; os que vivem no luxo, e os que vivem no lixo! Não há exceção: todos somos construtores diante de Deus e dos homens. 
Entretanto, o presente texto tem uma referência específica aos que ouvem as palavras de Jesus, ou, melhor, hoje sua referência é aos que lêem, não só o Sermão do Monte, mas toda a Bíblia, especificamente o Novo Testamento. Ouvir ou ler o evangelho tem sérias implicações: o ouvinte ou leitor não pode mais ficar sem opção! 
2. Toda construção tem um fundamento
2.1. O fundamento humano. (a) Capacidade intelectual. Dia após dia o homem está construindo sobre esta base, que para ele é plenamente sólida. O escritor de Provérbios nos exorta a confiar no Senhor e não em nosso entendimento (3.5). Estribar no próprio entendimento é firmar, segurar, assentar, apoiar suas construções no próprio entendimento, na capacidade de raciocinar. O mundo inteiro confia nessa pseudo-capacidade. (b) Livre-arbítrio. O homem vive a proclamar a liberdade soberana de sua vontade: “Querer é poder!” – proclama ele. Este constrói todo seu edifício nessa ilusão, sem saber nem pensar que esse fundamento é movediço, em dado momento vai ruir. (c) Idealismo. Ser idealista é bom, quando se têm os olhos abertos e os pés no chão para realidades transcendentes e imanentes. Todavia, em geral o homem põe o coração em suas aspirações e constrói aí seu edifício. (d) Bens terrenos. Os recursos materiais, quando submetidos a Deus e abençoados por ele, são uma bênção inestimável. Constituem uma bênção quando os governamos na direção de Deus e do bem-estar dos que nos cercam. Mas, se tomam as rédeas de nossos sentimentos, desejos, ambições desvairadas, e passam a nos governar, então nosso edifício está perdido, fadado à ruína. Todos os recursos humanos são frágeis demais para construirmos sobre eles. 
2.2. Jesus como único e supremo fundamento. Paulo estava certíssimo quando escreveu aos Coríntios: 
“Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). 
Quando Jesus convida os pecadores a irem a ele (Mt 11.28; Jo 7.37, 38), é para que construam suas vidas neste alicerce irremovível. Quando lemos que ele é a pedra que os construtores rejeitaram, a principal pedra de esquina, a alusão é também à construção da vida neste supremo alicerce (Mt 21.42). Quem construir nele com sabedoria e submissão vai ter seu edifício sempre de pé, a despeito das intempéries. 
2.3. Sua doutrina é o cimento. Não se constrói solidamente sem cimento. Esse cimento é a Palavra de Deus, que é luz (Sl 119.105); é perfeitíssima (Sl 119.140); é nutrição da alma (Mt 4.4); é espada (Ef 6.17); precisa habitar em nós (Cl 3.16); é viva e eficaz (Hb 4.12); é livre e poderosa (2Tm 2.9); transforma (1Pe 1.23); é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça, e habilita o cristão para toda a boa obra (2Tm 3.16, 17). 
2.4. Nossas obras são os demais materiais. Voltando à primeira epístola aos Coríntios, Paulo descreve os vários materiais que os cristãos usam em sua construção, ao longo de sua vida terrena: ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha. São figuras que ilustram a qualidade de nossa ação como construtores. Um material sólido, bem cimentado, bem apoiado no alicerce, jamais se abala; jamais apresenta rachaduras; suporta todo o peso e intempérie. 
3. Toda construção será provada
Jesus diz que, mais cedo ou mais tarde, as duas construções serão provadas com tempestades. 
3.1. Descrição. Os dois construtores têm em comum o fato de que ambos erigem suas casas num vale onde passa um rio, cujo leito, durante o período de estio, fica seco ou quase seco. Assim não haveria perigo para as duas casas. Até este ponto não há problema algum. Mas, deste ponto em diante, surge diferença fundamental entre os dois. O primeiro é previdente, é prudente, é sábio. Calcula bem quanto durará a estação de estio. Aproveita para abrir valas bem fundas, até encontrar a pedra bruta. Prepara bem o alicerce e edifica sua casa ali. Ele sabe que a chuva chegará, e com ela a enchente do rio. O outro construtor (nem é digno de tal qualificação) não faz nada disso. Ele edifica sua casa sobre a terra solta. Chega a chuva torrencial. A enchente bate nas laterais, abrindo sulcos, levando embora a terra solta. A chuva bate forte no telhado, abalando a segunda casa, que desaba e é levada pela correnteza. A primeira, ao contrário, nem se abala. Ao passar a chuva, ei-la ali inabalável, sem sofrer qualquer avaria. 
3.2. A construção humana. Acerca daqueles que decidem não construir sobre Cristo, diz o autor do Salmo 73: 
“Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados!, totalmente aniquilados de terror! Os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo” (vv. 18, 19, 27). 
Suas obras não são feitas em Cristo e para Cristo. Mesmo o bem que fazem, eles o fazem para sua própria exaltação pública. “Não consideram os feitos do Senhor, nem olham para as obras de suas mãos” (Is 5.12). Se suas obras não forem destruídas aqui, no dia do Senhor elas não resistirão. 
Um texto oportuno e adequado é a descrição que Jesus mesmo faz do dia do juízo final, em Mateus 25.44, 45. Ao destinar os ímpios (cabritos) a seu próprio lugar, Jesus realça a razão: “não me destes de comer, nem de beber, não me hospedastes, não me vestistes, não fostes ver-me.” Eles nem mesmo sabem que não fizeram tais coisas. Mas, de alguma forma, eles não as fazem? Naturalmente que sim. Só que as fazem para si mesmos, e não para o Senhor! Deus não computa as boas obras dos homens, quando estes não as fazem em nome e para a glória de Deus. 
3.3. A construção feita em Cristo. É tudo quanto se faz em seu nome, visando a sua glorificação agora, se possível, e no fim, sem dúvida. É todo bem promovido; é toda justiça fomentada contra todo sistema ímpio. É todo sal entremeado e toda luz refletida. É toda lei respeitada e toda prudência exercida. Todo manejo da palavra e toda serenidade de espírito demonstrada e toda vigilância insone. Todo fracasso deplorado humildemente e todo triunfo atribuído ao Espírito de Cristo. Toda nossa luta em favor do desvalido, do desprotegido, do sofredor que pranteia, que geme sem ter onde segurar. Toda nossa batalha em nome de Cristo, como nosso Irmão maior, nosso Salvador, nosso Senhor, nosso Mestre, nosso Exemplo, nosso Sumo Sacerdote, nosso Juiz supremo, nossa Eternidade gloriosa. Toda nossa construção é sobre ele e para ele. Sua glória é o que mais nos importa e é ela que nos impele para frente. Estar eternamente com ele é nossa suprema aspiração e deleite. 
Enquanto Jesus fala de água da chuva, Paulo fala de fogo depurador. 
“Manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; o que seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificar, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia como que através do fogo” (1Co 3.13-15). 
Existe construtor e construtor. Nem todos constroem da mesma forma; nem todos constroem bem. Todos constroem, porém há diferença no modo de construir. Entretanto, uma coisa é certa: todos os que constroem em Cristo serão por ele recebidos, mesmo que sua construção não seja de primeira categoria e não resista ao tempo. A Graça receberá a todos os regenerados e destinados à vida eterna. Nem todos, porém, são igualmente fortes. Alguns são fracos, sem forte aparência de filhos do Deus Altíssimo. Alguns baterão no peito diante do supremo Juiz, sentirão laivos de vergonha e pesar. Mas a brandura do Juiz será estimulante para seus corações constrangidos. Embora o material da construção não seja de primeira categoria, o alicerce e o cimento sustentarão o edifício. Quanta graça! 
Em contrapartida, muitos edifícios belos, arranha-céus, fortalezas, não foram notados pelo mundo. Seus construtores não receberam nenhum Prêmio Nobel. Não foram elogiados por tão belas construções; não apareceram nos programas de televisão; não foram entrevistados. Só o Senhor fará justiça naquele dia. A inversão de realidades e valores será algo desconcertante. Basta lembrarmos a parábola do “rico” e Lázaro. Se hoje os paradoxos divinos nos assustam, o que dizer daquele dia terrível e glorioso? 
4. A autoridade de Jesus e sua doutrina
As traduções em português enfraquecem a força da emoção da multidão, à luz do idioma neotestamentário. Transcreveremos as mais fortes: “tomada de admiração” (Edições Loyola); “maravilhadas” (Nova Versão Internacional); “estava todo o povo arrebatado” (Huberto Hohden); “assustados” (Edgar J. Goodspeed). 
Cremos que os poucos exemplos servem para informar-nos do real estado de espírito da multidão: estava aturdida, pasma, perplexa, atônita, assustada, tremendo. Cremos que havia até mesmo um laivo de medo naqueles corações. Seus ouvidos jamais tinham ouvido algo semelhante. Uma pergunta vem a nossa mente: o que havia de tão assombroso na pregação de Jesus? 
4.1. Ele falava a verdade cristalina, pura, celestial, francamente (Jo 14.6; 18.37). O povo estava acostumado com o palavrório empolado, besuntado de mentira e político dos fariseus e escribas; eles gritavam, porém não impressionavam. 
4.2. Os assuntos de Jesus eram momentosos, atuais, de grande relevância. Ele falava sobre a vida, sobre a morte, sobre o porvir, sobre o inferno, mas também falava sobre as necessidades básicas do ser humano, aqui e agora. Os fariseus e escribas discorriam sobre minudências da lei, de maneira impessoal e estéril (Mt 23.23; Lc 11.42). 
4.3. Havia nas palavras de Jesus sistema e precisão. Ele era definido em sua exposição; ia direto ao ponto. O contrário disso era o hábito dos fariseus e escribas, que divagavam sem objetividade. 
4.4. Jesus fascinava os ouvintes com suas ilustrações vivas e variadas, bem aplicadas, assim como seus exemplos concretos (5.13-16; 6.26-30; 7.24-27; 5.21–6.24). Os discursos dos fariseus e escribas eram vazios e áridos. 
4.5. Ele revelava amor pelos ouvintes; demonstrava preocupação com a sorte dos ouvintes; revelava empatia e compaixão; olhava bem nos olhos dos ouvintes; tocava e aquecia seus corações; falava do Pai como quem ama, e ama infinitamente (5.44-48). Não era esse o caso dos fariseus e escribas (23.4, 13-15; Mc 12.40). 
4.6. Finalmente, ele falava com autoridade (5.18, 26). Em que consistia essa autoridade? Consistia no fato de que ele falava uma palavra que vinha diretamente do coração e da mente do Pai (5.17; 7.12; 4.4, 7, 10). Sua vida moral, igualmente, era uma pedra inabalável. Nem mesmo os inimigos puderam lançar-lhe lama com suas difamações. Esse não era o caso dos fariseus e escribas. Estes eram cisternas secas; Jesus era “a fonte de águas vivas” (Jr 2.13). 
Conclusão 
Sermão do Monte! Sermão de Vida sublime e abundante! Eis o confronto decisivo: quem ouve estas minhas palavras e as pratica versus quem ouve estas minhas palavras e não as pratica. Quem lê o Sermão do Monte não pode mais seguir em frente com o coração indiferente, como se nada tivesse a dizer ou a decidir. Ele terá que dobrar à direita, praticando este ensinamento com fé, amor e determinação, ou terá que dobrar à esquerda, à semelhança do jovem rico, porém sem a vida eterna (Mc 10.17-22). Ao encontrarmos Jesus, temos que dizer apenas uma de duas palavras: sim! Ou, não! Não há meio termo. A existência humana só tem dois caminhos e dois destinos: a eternidade feliz com Cristo ou a eternidade infeliz sem ele. 
Medite e responda
1. Pense agora em todo o Sermão do Monte, parte por parte e como um todo. 
2. Cristo é o Fundamento de tudo quanto falou no Sermão do Monte. Do quê mais ele é o Fundamento? 
3. Que casa você está construindo? 
4. Sobre quê base Jesus nos julgará no dia do juízo final? 


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